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segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Os Vilões e a Coragem

Por Anderson Araújo
(Para Daniel Campos)

Nossos sentimentos e nossas paixões tendem quase sempre ao excesso ou à deficiência (falta). Em relação à coragem não seria diferente. O filósofo Aristóteles classifica a coragem como virtude entre dois vícios. A deficiência ou falta de coragem denomina-se covardia. E o excesso de coragem pode ser classificado como temeridade. É covarde todo aquele que não consegue enfrentar o seu medo e deixa-se paralisar pelo sentimento de medo. O excesso de coragem também é ruim, pois aquele que age sem temer a nada, põe a sua vida em risco por motivo algum, torna-se temerário.

Desse modo, é necessário o medo na ação para que ela possa ser considerada corajosa, sobretudo na coragem heróica. O herói não é aquele que não tem medo ou que age sem medo. O herói é aquele que enfrenta o seu medo, coloca a sua vida em risco para o benefício do outro, para salvar o outro. 

Por isso poderíamos dizer que os super-heróis não são corajosos? Os seres humanos são corajosos. O super-herói em geral, dos quadrinhos e do cinema, não coloca a sua vida em risco. Ele teria uma atitude do herói: a  ação voltada para o benefício dos outros. Mas quando, por exemplo, o super-homem entra num prédio em chamas para salvar uma pessoa, ele sabe que não há risco nesta ação. Por outro lado, um homem, que pode ser um bombeiro, quando entra num prédio em chamas, coloca a sua vida em risco para salvar a vida dos outros. Logo, neste caso vemos uma ação corajosa.

Nos últimos dias aprendi com um aluno durante uma aula sobre o tema em questão, outra perspectiva, outra leitura da ação do super-herói, que até então não havia parado para pensar, nem havia percebido. Os vilões, os monstros etc, atuam com a função de fazer, de tornar o super-herói corajoso. Pois se o prédio em chamas não traz medo ao super-homem, um vilão mais forte ou com criptonita certamente faz com que o super-homem coloque a sua vida em risco para salvar uma pessoa. Os vilões fazem com que os super-heróis se superem, enfrentem grandes desafios.

Pode-se também classificar os super-heróis como virtuosos e principalmente, corajosos, mantendo as duas características: o agente deve colocar a sua vida em risco para salvar o outro. Aprendi a reconhecer a "função", o "papel" dos "vilões" não apenas na vida dos super-heróis, mas também na vida dos seres humanos, a fome, o desemprego, a doença, a corrupção principalmente no Brasil, são "vilões" e fazem com que nos tornemos ainda mais corajosos quando enfrentamos todos esses desafios. Neste sentido, podemos continuar a reflexão sobre o assunto citando Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem"

sábado, 13 de agosto de 2011

As Virtudes: Humildade e Amor-próprio

Por Anderson Araújo


A humildade é a virtude mais humilde porque o humilde nunca vai dizer que é humilde. O humilde sempre vai ter consciência de que ainda não é humilde, de que precisa melhorar as suas atitudes e de que precisa aprender ainda muita coisa. 

Por isso, pode-se dizer que ser humilde é ser sábio. Pois a pessoa humilde busca aprender sempre mais, está sempre aberta ao conhecimento do novo, do outro e de si mesmo. Humildade é, em outras palavras, conhecimento da própria ignorância. Isso significa dizer que o humilde sabe que ignora, ou seja, sabe que desconhece outros campos do saber e muita coisa sobre o mundo. 

A falta da virtude da humildade é o orgulho. O orgulho é a ignorância da ignorância. O orgulhoso acredita que sabe tudo e que não há mais nada para aprender sobre o mundo com os livros ou com as outras pessoas. O orgulhoso ignora que ignora. Isso quer dizer que ele não sabe que, sobre o mundo e sobre si mesmo, ele não sabe muita coisa; que ainda falta muito para aprender, e por isso mesmo nada aprende.

Saber amar a si mesmo é também uma virtude, pois é a capacidade de, moderadamente, dar um valor a si mesmo. Por isso pode-se dizer que o amor-próprio é um cuidado de si. Cuidado com o corpo, com a mente e com a sua própria imagem. 

Quem tem amor próprio tem autoestima. Por isso a falta de amor-próprio seria uma espécie de baixa autoestima, e por isso um vício - um mau hábito, a capacidade de se julgar com freqüência, inferior em relação às outras pessoas. A falta de cuidado com o corpo, com a “vida intelectual” pode revelar uma baixa autoestima. 

Apesar disso, o excesso de cuidado com a própria imagem também pode revelar uma baixa autoestima, pois aquele que dá um valor excessivo à sua própria imagem se sente inseguro, sem conteúdo e sem valor para as outras pessoas, e por isso, tenta compensar o seu “baixo valor” com a sua imagem, os músculos e a beleza física. 

É bastante sutil a distância entre amor-próprio e a vaidade. Pois ambos dizem respeito ao “ego”, ao “eu” da pessoa. Mas enquanto o primeiro revela apenas amor, cuidado de si e respeito a si mesmo; a vaidade revela que falta amor a si mesmo, respeito a si mesmo, pois ocorre uma supervalorização à imagem e ao corpo, ou ao intelecto.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Virtudes e o Mito do Sucesso do Mau Aluno

Por Anderson Araújo

O filósofo Aristóteles nos ensina que a virtude, assim como os vícios, são hábitos, coisas que fazemos com frequência. Quando os hábitos são bons, temos a virtude. O contrário, hábitos ruins, produzem vícios. Além disso, é importante notar que toda virtude é sempre um equilíbrio entre o excesso e a falta.

Exemplificando, podemos imaginar a vida de uma pessoa quanto à prática de atividade física. Aquela pessoa que treina diariamente um esporte, ou que pratica uma caminhada diária de 1h, pode ser considerada virtuosa. A prática deve ser regular para ser classificada como virtude, mas não pode ser executada em excesso.

Um jovem é virtuoso quando se dedica quatro horas diárias ao estudo e, além disso, faz atividade física, conversa com os amigos e convive com a família. No entanto, se o jovem passa a se dedicar 10 horas diárias ao estudo e, com isso, deixa de se relacionar com os amigos e com a família, e não faz atividade física, fica claro que ele está se excedendo em sua ação, logo, estudar neste caso não deve ser considerada uma virtude.

Toda virtude é sempre um equilíbrio e também esforço. Poucas pessoas têm talentos naturais para fazer determinadas coisas. Os atletas só se realizam e alcançam medalhas devido ao tempo que se dedicam aos treinos. E mesmo quando alcançam pódios, continuam a treinar. Porque sabem que sem o treino, sem o esforço, não alcançarão a vitória.

Existe o mito do sucesso do mau aluno, tema já apresentado pelo consultor de carreiras Max Geringer no seu programa diário na rádio CBN. As pessoas divulgam a ideia de que mesmo o mau aluno pode ter sucesso na sua carreira. O que é verdade, embora não se fale que ele terá mais dificuldade do que o bom aluno.

Quem é o mau aluno? É aquele que não tem compromisso, que não respeita nem os pais, nem os professores (autoridades). Além de ter dificuldade para cumprir compromissos, como chegar no horário, o mau aluno enfrentará dificuldades de se relacionar com os seus superiores (chefes, gerentes), pois não estava habituado a ver os pais e professores como autoridades.

Se toda virtude é sempre um esforço, aquele que se esforça terá mais facilidade de se adaptar a regras e horários, e portanto, de se relacionar melhor no seu ambiente de estudo e de trabalho.

No próximo texto vou refletir sobre virtude e mediocridade.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Encantamento, Espanto e Admiração


Por Anderson Araújo

Os filósofos começaram a filosofar devido a uma atitude de espanto, estranhamento e encantamento, nos diz o filósofo Aristóteles. Estas palavras são possíveis variações obtidas pela tradução do verbo grego "thaumatzein". Em outras palavras, podemos dizer que o que move o filósofo é esta atitude de espanto diante do mundo e das coisas.

O mundo se apresenta enigmático, misterioso e estranho aos olhos de um filósofo. Por isso, filosofar é uma atitude de questionamento e de investigação das coisas comuns e experimentadas como "óbvias" pela maioria das pessoas. É verdade que precisamos nos acostumar com algumas coisas para agirmos no cotidiano. Certos automatismos garantem a nossa boa sobrevivência. Mas também impedem a reflexão e nos deixam mais robóticos e menos humanos.

Sempre digo que há coisas, imagens e aspectos diferentes, seja das paisagens ou das pessoas, no caminho que fazemos quando saímos de casa ou quando para ela voltamos. Uma postura filosófica é também vigilante, sobretudo contra o olhar viciado. A vida fica sem graça quando deixamos de ver coisas diferentes no mundo. O óbvio rouba o brilho dos nossos olhos.

Os fenômenos da natureza nos causam espanto e admiração, o pôr-do-sol por exemplo. O ciclo da vida e o comportamento humano também. A capacidade humana de fazer o mal nos assombra, mas a sua capacidade de doar-se e de cuidar da vida nos encanta. Estas atitudes também são características da ciência. Por isso a ciência sempre avança por meio de novas pesquisas sobre um objeto já inúmeras vezes estudado.

Experimentar o mundo com outros olhos é um modo de resignificá-lo, dar novos sentidos às coisas. Isso nos torna mais criativos, mas artistas, enfim, mais humanos. Além disso, penso que também é uma atitude nobre. O contrário, uma vida acostumada e confortável no mundo, é quase sempre triste, sem sabor, sem encantamento, por isso pobre de espírito.

(Imagem: "A noite estrelada" de Vincent Van Gogh, 1889)