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sábado, 27 de junho de 2015

Ética e os "Bobos da Corte" na Política Brasileira

Por Anderson Araújo
Espanto, terror, angústia e tristeza. É o que se sente diariamente lendo jornais, assistindo TV e acessando redes sociais. Tenta-se ver pelo lado positivo: "ah, as pessoas estão se expressando". Ou: "os jovens estão escrevendo mal, mas pelo menos escrevem". Entretanto, embora haja um acesso democrático a diversos tipos de informação, não há ética alguma na divulgação da informação.

Muitos profissionais e, principalmente alguns jornalistas, tratam o outro, o entrevistado, a vítima, o cidadão, como se fosse uma coisa, um objeto; o que assistimos a todo instante é a coisificação, a reificação do humano. Jô Soares foi execrado nas redes sociais por ter sido educado em sua entrevista com a presidente do Brasil. Artistas têm suas vidas constantemente vigiadas, suas intimidades sequestradas por câmeras e por falsos amigos. Além disso, tornou-se moda expressar que se tem "orgulho de ser hetero", ou "orgulho de ser gay". Sem falar na classificação, no mínimo "agressiva", que algumas pessoas insistem em atribuir às posições partidárias no Brasil.

Enquanto isso, nossos representantes políticos travam batalhas intensas sobre a maioridade penal e questões relativas à homofobia. E então, arma-se a tenda. E muitos da plateia "entram na briga" com os dedos no teclado ou na tela de seus celulares para destilarem o seu ódio! E quem ganha com isso? Nossos representantes políticos que mais uma vez conseguem desviar o foco da população. Brilhantes estrategistas. Sabem que o ser humano é atraído por questões afetivas, calorosas. Sabem que as pessoas se preocupam mais com aquilo que toca seus preconceitos, suas decepções, frustrações e sentimentos, do que com números e argumentações fundamentadas racionalmente. "Enquanto isso, nobre deputado, eles se esquecem do aumento da passagem, da reforma agrária e da reforma política". 

Sim, enquanto todos se "alfinetam" e se agridem com palavras e palavrões, nossos representantes políticos deixam de trabalhar com questões urgentes e que poderiam mudar o futuro do nosso país. 

Sim, temas como a homofobia e a maioridade penal devem ser discutidos, mas racionalmente, com respeito às pessoas e às diferenças. 

A homofobia é realidade. Há pessoas homofóbicas, com aversão a homossexuais, com ódio e raiva de homossexuais. Muitas chegam a agredir fisicamente homossexuais. De outro lado, temos também como realidade a prática de crimes por crianças e adolescentes. Temos relatos de pessoas que já foram agredidas, assaltadas por menores de 18 anos, e ainda mais chocante, temos notícias de crimes bárbaros que tiveram menores de 18 anos como autores ou coautores. 

Porém, há uma realidade que precisa ser debatida com mais urgência ainda. Nossas leis, quando punem, não o fazem exemplarmente. Nossas prisões, quando prendem, não são "restauradoras", não servem para reabilitar pessoas, pelo contrário, em grande medida são laboratórios ou "graduações" para criminosos. Logo, outras questões deveriam fazer parte da agenda política no momento atual, tais como: "o que o Brasil faz com seus criminosos?". "O que o Brasil deveria fazer com seus criminosos para que outras pessoas não sejam motivadas a cometer crimes?". Como "recuperar", e "de qual tipo de criminoso pode-se esperar uma recuperação?". 

As respostas para estas questões nos levariam também para soluções mais coerentes para a violência contra mulheres, negros, idosos e homossexuais. Sociologicamente, estes grupos são classificados como minorias sociais porque não têm seus direitos de cidadãos e seres humanos respeitados. Por isso temos os chamados "estatutos", leis e políticas públicas que foram criados para garantir que esses grupos sejam respeitados e tenham acesso a diversas coisas, como a universidades, por exemplo. 

Reduzir a maioridade penal num país que não "pune" exemplarmente seus maiores - definitivamente não é a solução. Reduzir a maioridade penal num país que não "restaura" a pessoa que cometeu um crime - definitivamente não é a solução. Enquanto não há punição rigorosa, há o aumento da sensação de impunidade na população. Enquanto não há "restauração" do criminoso, aumenta o ódio, a vontade de vingança, a insatisfação de se viver num país tão desigual, e, ao mesmo tempo, aumenta a vontade de levar vantagem, de ser "esperto". 

O criminoso é um ser humano. O cidadão é um ser humano. Idosos, mulheres, negros e homossexuais são seres humanos. O Jô Soares é um ser humano. A presidente do Brasil é um ser humano. As leis devem servir para promover a vida, com dignidade de todo e qualquer ser humano. Do mesmo modo, devem servir também para punir, "restaurando" todo ser humano. 

Quando o Estatuto da Criança e do Adolescente for respeitado e cumprido; quando adultos - maiores de 18 anos - forem realmente punidos pelos crimes que cometeram; quando todo tipo de crime contra a vida for exemplarmente julgado e punido; veremos que não será necessário nem reduzir a maioridade penal; nem criar leis para garantir que o direito de negros e homossexuais seja respeitado. 

Agressões verbais e físicas a homossexuais nos causam indignação. Assim como agressões verbais e promessas virtuais e reais de linchamento contra seres humanos. Parece que questões tão polêmicas e tão humanas têm servido tão somente para entreter a população, assim como os monarcas utilizavam os bobos da corte para divertir os súditos. Mas sempre foi deles mesmos que riam, quando riam do bobo. Será que somos obrigados a respeitar a agenda dos nossos representantes políticos ou deveríamos propor a agenda? Talvez seja a hora de devolver a piada e dizer que sabemos que é o nosso trabalho que constrói o país e sustenta nossos "servidores", nossos representantes que devem legislar e governar para todos, defendendo a vida e a justiça. Certamente, é o momento de propor a ética, o respeito a todo ser humano, independentemente de orientação sexual, de opção partidária e de religião.

Quem é o bobo da corte no cenário atual? Quais são os bobos da corte estrategicamente selecionados por alguns meios de comunicação e pelos principais atores políticos? Enquanto todos assistem aos espetáculos dos bobos da corte, o que fazem tantos outros políticos eleitos que, semelhantes aos monarcas, independentemente da situação econômica do nosso país, continuam ganhando seus salários milionários, continuam recebendo seus benefícios assustadoramente generosos?

Tais questões não pretendem disseminar o ódio ou a revolta contra pessoas ou grupos. São pontos de partida para reflexões sobre a alienação a que somos envolvidos no cotidiano. A partir da conscientização da real situação que vivemos, poderemos tomar decisões mais coerentes sobre a vida em sociedade, na convivência com os outros. Atitudes simples podem ser sinal do que chamamos de cidadania, a começar pelo uso ético das redes sociais. Antes de "compartilhar", veja se é verdade. Compartilhe ações afirmativas. Denuncie fatos verídicos. Leia mais de um jornal, recorra a opiniões diversas sobre um determinado tema para extrair uma conclusão. E, antes de dar a sua opinião, antes de dizer se é "contra" ou "a favor", não se esqueça de que você tem o direito de ter um tempo para pensar sobre o que acontece, e que muitas vezes, ainda não houve tempo suficiente e "informações" ou "provas" suficientes para você chegar a uma conclusão; muito menos para julgar ou incriminar alguém.

sábado, 4 de outubro de 2014

Eleições no Brasil: Terror e covardia ou Liberdade e coragem?

"Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo".
(Immanuel Kant)

Por Anderson Araújo
Muitos alunos e amigos me pediram para escrever um texto para manifestar o meu voto e fazer uma análise dos candidatos à presidência do Brasil. Alguns já sabem o nome que tem o meu apoio. E muitos sabem, principalmente, quem não tem o meu apoio.

Penso que muito mais importante do que defender uma argumentação, explicitando os feitos e fatos que me levaram a fazer a minha escolha, será provocar o meu leitor e a minha leitora a pensarem por conta própria, uma vez que esta seria a função de um filósofo ou pensador. 

O filósofo Immanuel Kant pode nos auxiliar neste texto. Para Kant, muitos se encontram no que ele chamou de "estado de menoridade". Estar nesta "situação" ou "estado" não é ter menos de 18 anos, mas se comportar como alguém que não tem condições de pensar por conta própria, que não tem capacidade de fazer o uso da razão. Logo, você se encontra neste "estado" de menoridade se você como eleitor não é capaz de fazer uso da sua própria razão para fazer suas escolhas. É cômodo deixar que as revistas, os jornais, a TV e as pesquisas de opinião pensem por você e conduzam o seu voto. Por isso, segundo Kant, quem está nesta "situação" não passa de um covarde ou preguiçoso.

De um lado, penso que há uma grande parcela de covardes por preguiça mesmo. E de outro, aqueles que não têm outra opção, não têm como ler outra revista, não têm acesso a outro tipo de informação ou a outro canal em sua TV; por isso este grupo que está fadado a ter um único ponto de vista acerca de tudo, pois não tem oportunidades ou opções, acaba se tornando vítima e não teria condições de se libertar da menoridade que se encontra, diferentemente daquela parcela preguiçosa, que não é vítima, mas covarde.

Quero, pois, pensar a respeito do que motiva a uma parcela de pessoas a disseminar, a divulgar o terror que vivemos na véspera das eleições e o que leva outras pessoas a acreditarem no terror.

Primeiramente, precisamos nos conscientizar de que o ser humano, sobretudo quando não tem como recorrer à ciência e à razão para resolver os seus problemas, acaba buscando explicações mitológicas e religiosas sobre o mundo. Neste aspecto, algumas pessoas que não têm competência e capacidade para conquistar o voto dos eleitores, começam a disseminar o terror, e junto com ele, as teorias conspiratórias. E aqui aparecem as pessoas que se encontram na situação de menoridade: apenas acreditam; não refletem, não pesquisam, não investigam. E pior: divulgam, compartilham o terror! Você já notou que quando o seu time perde um campeonato ou apenas um jogo, você tende a culpar a arbitragem, ou mesmo começa a acreditar que os jogadores venderam o resultado? 

Nós precisamos justificar a derrota, principalmente se ela tiver gerado em nós uma frustração. 

E numa eleição, quando está em jogo os meus interesses, o meu salário, o imposto de renda, o cargo que ocupo? Como as pessoas podem pensar diferente de mim? Como a maioria pode escolher X e não escolhe Y? Ah, aí surgem as teorias conspiratórias. Quando o seu candidato vence, a urna é segura, confiável. Agora, "paira no ar" a ideia de que há manipulação dos resultados das urnas. Quando o seu time vence, ele é o melhor, o jogo foi justo. Mas quando ele perde... Como justificar o fracasso e as opiniões contrárias às suas?

Você vai disseminar o terror por ser covarde ou por defender interesses próprios?

Notam-se também nestas eleições posições fundamentalistas. Muitos que criticam o fundamentalismo religioso que mata milhares de pessoas no mundo, acabam assumindo posições fundamentalistas na eleição. A pessoa que tem posição fundamentalista vê como o diabo todo aquele que se posiciona diferentemente dela, e não admite que o processo seja justo por tantas pessoas pensarem diferente dela.

Tenha a coragem de fazer o uso da sua razão e de se libertar da menoridade, para enfim, alcançar a maioridade. Ter coragem neste caso, é a capacidade de perceber o que manipula você, o que o seduz e o que "mascara" as verdadeiras intenções daqueles que desejam o seu voto. Faça a sua escolha, mesmo com riscos, mas assuma os riscos de ter pensado por conta própria. Porém, não se esqueça de que a sua escolha deveria ser feita pensando na REPÚBLICA, na "coisa pública", porque um presidente não governa apenas para um grupo ou para uma pessoa, mas para todos os cidadãos. Portanto, seria justo votar pensando em seu próprio benefício e deixar de pensar no benefício da sua nação, do seu país? Talvez você esteja num grupo que não possa ser favorecido diretamente caso determinado(a) candidato(a) vença. Você teria coragem de votar nele(a) pensando no bem-estar e na felicidade da nação?

Sendo assim, se quiser, divulgue o seu voto, o seu apoio a uma pessoa, mas racionalmente, equilibradamente, sem recorrer a teorias conspiratórias, sem disseminar o terror e o ódio. Apresente as propostas dele (a), dizendo por que é importante para o nosso país que ele (a) seja eleito (a). Não se precipite, reforçando a situação de menoridade que muitas pessoas se encontram. Tenha a coragem de buscar o esclarecimento e contribua para o esclarecimento dos outros, pois somente assim teremos uma nação melhor para todos e não apenas para alguns.

Se você pensa que o candidato que faz ataques pessoais ao invés de fazer propostas é o melhor candidato, você é livre para ser governado por alguém que você não sabe o que pretende fazer por você. Os debates para presidente demonstraram claramente isso. Tantos temas importantes para serem pensados e debatidos, entretanto, muitos preferiram o espetáculo. Lamentavelmente, quem se encontra na menoridade prefere o espetáculo porque precisa apenas assistir, enquanto que pensar por conta própria com a finalidade de compreender exige esforço, empenho e estudo.

Não penso que quem pensa diferentemente de mim representa o mal ou é covarde e estaria no estado de menoridade. Sou contra qualquer tipo de fundamentalismo, contra a política como espetáculo e defendo a democracia, ainda que, democraticamente, sejam eleitos aqueles que não escolhi. Meu julgamento é a respeito dos critérios que levam você a fazer a sua escolha. Se os seus critérios foram determinados a partir de uma lucidez e de investigação pessoal, fico feliz que você tenha chegado a um determinado candidato mesmo sendo diferente da opção que eu fiz. Porém, se a sua escolha estiver fundamentada na beleza do (a) candidato (a), nas teorias conspiratórias que favorecem apenas aqueles que querem o poder a todo custo; lamento caro leitor, você pode votar, mas ainda se encontra na situação de menoridade.