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sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Vestibular UFMG 2012

Veja abaixo os cursos que terão prova específica de FILOSOFIA na Segunda Etapa do Vestibular da UFMG/2012, além, é claro, do curso de filosofia.

Artes Visuais
Ciências Sociais
Cinema de Animação e Artes Digitais
Comunicação Social
Ciências do Estado
Direito
Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis
Design de Moda

Textos de FILOSOFIA indicados ao vestibular


(Todos estão disponíveis para DOWNLOAD na página da COPEVE/UFMG, mas você pode acessá-los por aqui, clique sobre eles). 




segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dúvida

Por Anderson Araújo

René Descartes adotou o método da dúvida como estratégia de argumentação. Em "Meditações Metafísicas" ele fala sobre "as coisas que se podem colocar em dúvida". Ele lembra que normalmente nós recebemos falsas opiniões como verdadeiras. Com o seu método, pretende rejeitar todas as opiniões que forem falsas ou que lhe parecerem falsas. Isso demonstra um certo rigor em seu método.

O filósofo lembra que os sentidos nos enganam. Além disso, nós também nos enganamos quando dormimos, pois diversas vezes confundimos sonho e vigília. Em alguns sonhos achamos e sentimos que estamos acordados e que estamos de fato vivenciando determinadas situações. Logo, nós confundimos sonho e realidade.

Como podemos comprovar se estamos dormindo ou acordados? Nós nos alegramos quando sonhamos, sentimos dor, medo, prazer e tristeza como se estivéssemos acordados. Você não estaria sonhando neste momento em que lê este post de filosofia? Você pensa que está sentado em uma cadeira ou poltrona e que está diante do computador, mas também não poderia estar "na horizontal" sonhando com tudo isso?

Este pensamento pode parecer banal, simplório, ou louco. Mas tem um grande valor filosófico no sentido de nos alertar para a necessidade da dúvida em nossos raciocínios e argumentações. Somos passíveis de erro, sujeitos ao engano. Logo, devemos tomar cuidado com as opiniões que recebemos dos outros e com o nosso conhecimento do mundo em geral. A dúvida nos possibilita um conhecimento mais seguro das coisas e de nós mesmos.

Entretanto, o filósofo René Descartes não se contenta com a dúvida. Sua investigação pretende chegar ao que não se pode colocar em dúvida. É aí que ele chega no princípio "Cogito ergo sum", ou seja, "Penso, logo existo". "Eu estou pensando" é princípio e é puramente intelectual, razão pela qual não posso duvidar. "Eu estou pensando" é indubitável porque é evidente. Mesmo duvidando que estou pensando é indubitável que penso ao duvidar. Já "eu estou suando" não é indubitável porque é um dado da experiência que não é claro, nem evidente. Para Descartes é indubitável aquilo que é puramente intelectual.

Apesar disso, essa problematização gera um longo e interminável debate entre os filósofos. Um deles é se realmente podemos provar a existência daquele que pensa a partir da capacidade de pensar. E ainda, ao descobrir que penso, posso até provar a minha existência, mas como provar a existência das outras pessoas e das coisas ao meu redor?

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

DESCARTES, René. Meditações Metafísicas.





domingo, 1 de agosto de 2010

"Você se sente em casa no mundo?"

Por Anderson Araújo

“- Keegan: O senhor se sente em casa no mundo, então? - Broadbent: Claro. O senhor não? - Keegan: (do fundo de sua interioridade) Não. - Broadbent: (jovialmente) Experimente pílulas fosfóricas. Eu sempre as tomo quando sinto o cérebro cansado. Dar-lhe-ei o endereço na Rua Oxford.” (...). (Cena da peça de Bernard Shaw, John Bull’s Other Island)

Penso que o estranhamento do mundo, do mesmo e do outro é condição de possibilidade para o filosofar. Uma vez que, como Bornheim, acredito que o que leva o homem ao filosofar é um processo, a saber, um processo dialético. Dialético porque envolve três momentos. O primeiro é a afirmação dogmática do mundo; o segundo é a experiência da negatividade; e o terceiro, poderíamos dizer, a postura de assumir a filosofia como projeto de vida.

O primeiro momento pode ser até marcado por uma admiração, mas ingênua, e é oposto ao encantamento e ao espanto descritos acima, pois é um momento passivo, sem reflexão e sem questionamentos. Uma admiração do homem que não pensa nem a si mesmo e nem o mundo como problema, é a postura do homem adaptado a um mundo pronto e, portanto, seguro. No segundo, quando o homem vive a experiência negativa, quer dizer, o momento de estranhamento, a afirmação dogmática e segura do mundo dá lugar à dúvida e, assim, à insegurança. E aqui reside a possibilidade de se avançar em direção ao filosofar, caso este momento seja superado. A negação teria aqui um valor metodológico, é o caminho, não é o fim.

O terceiro momento do processo dialético que nos leva ao filosofar é o momento de assumir a filosofia como projeto de vida, isto é, o de abandonar as falsas seguranças, mesmo que para tal seja necessário assumir uma “moral provisória” como o fez Descartes. E aqui um detalhe importante que é a provisoriedade. Pois, Nietzsche já dissera que as nossas convicções são as nossas piores inimigas.

Logo, o filosofar é marcado pela provisoriedade, que traz consigo uma certa insegurança, pois o mundo não é e nunca será sempre o mesmo. O mundo se nos apresenta como mistério, assim como nós mesmos o somos. Todavia, o caráter misterioso do mundo e de nós mesmos não impede que a filosofia investigue e questione o mundo e a nós mesmos. Pois, a filosofia problematiza, mas também argumenta, formulando juízos, afirmativos e negativos.

O que posso conhecer? Ora, se aprendo com o processo dialético do filosofar que os fenômenos me são estranhos como o sou para mim, o que me resta poder conhecer? O fato de o mundo se me aparecer estranho não me impede de conhecê-lo e de explorá-lo. Acredito que tal fato apenas nos impede de sermos pretensiosos quanto às nossas afirmações acerca do mundo.

A partir de Descartes, o saber é fundamentado no “cogito, ergo sum”. E para alcançá-lo tem-se um método seguro, que nos permite chegar, portanto, a um conhecimento seguro. Temos aqui uma ideia de conhecimento atrelada à ideia de verdade infalível. Podemos duvidar sobre a existência das coisas, mas não podemos duvidar que estamos pensando sobre a existência das coisas e o duvidar, que é pensar, prova a existência de um ser pensante. O pensamento teria, pois, uma grande importância para o conhecimento.

Nietzsche e outros filósofos questionaram a postura cartesiana acerca do conhecimento. Temos em Descartes uma pretensão absoluta de um conhecimento infalível acerca da realidade. É a ideia de um sujeito que pode ser caricaturizado pela imagem tradicional e popular do cientista, a do “homem de branco e de óculos”, capaz de desnudar a realidade depois de um determinado tempo de pesquisa, pois pode desvendar os segredos dos seus objetos de pesquisa, através da observação e da razão.

Enxergar o mundo e a nós mesmos como objetos seguramente decifráveis, nos levaria a uma visão dogmática e fragmentada da realidade. A minha postura sobre o conhecimento é, em princípio, “nietzschiana”, pois é orientada pela ideia de um saber que se constrói perspectivo. Portanto, há perspectivas porque há limites no meu conhecimento. Não posso conhecer o todo pela parte, e Kant já demarcara que não posso conhecer todas as coisas, pois há limites para a razão.

À questão “o que posso conhecer?”, posso responder como Kant: posso conhecer fenômenos, e como Nietzsche: perspectivamente. Há limites para a razão e para a consciência. A existência de tais limites não deve paralisar a nossa investigação filosófica. Pelo contrário, ela deve nos orientar para uma postura despretensiosa que se perceba limitada e atenta à pretensão de que se pode conhecer a totalidade das coisas ou dos seres. Um conhecimento seguro é, pois, um conhecimento que se perceba limitado e sempre a caminho.

Portanto, a filosofia nos ensina que, primeiramente, devemos ter uma capacidade de estranhar o mundo. Aprendemos também que o estranhamento, a inquietação, podem se manifestar de diversas formas. Resta dizer que a experiência negativa pode ser passiva e ativa. O homem que tão somente “não se sente em casa no mundo”, necessariamente não está filosofando. Ele pode estar mergulhado numa espécie de pessimismo doloroso que o impede de avançar em direção ao filosofar. Podemos nos sentir fora de casa no mundo em diversos momentos, mas eles devem ser superados, sobretudo pela via argumentativa e discursiva, o que seria uma experiência negativa ativa. É verdade que inseridos no processo do filosofar veremos o mundo com outros olhos, mas não significa que estaremos protegidos de assumirmos outros olhares dogmáticos em nossa vida.

Sobre o processo dialético do Filosofar: BORNHEIM, Gerd. Introdução ao Filosofar. Porto Alegre: Globo, 1978.