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terça-feira, 15 de outubro de 2013

Professores e Alunos: Super-heróis ou Construtores do Conhecimento?

Por Anderson Araújo
(Para Eni Maria)
Quando comecei a lecionar me surpreendi com várias situações em sala de sala. Não é que hoje não me surpreenda mais, pelo contrário, continuo a me surpreender positivamente e negativamente. Certo dia, durante a aplicação de uma avaliação de filosofia, enquanto "passava" a lista para os alunos assinarem, notei alguns nomes diferentes ao fim da lista. Os nomes se destacavam principalmente pelo fato de serem nomes de super-heróis dos quadrinhos. 

Não vou discursar sobre o que eu "deveria" ter feito, ou o que outros professores teriam feito quanto ao gesto que de certa maneira demonstra "indisciplina" ou "descaso" dos alunos quanto à seriedade de um documento que é a lista de presença - é evidente que deixei isso claro! Apesar de tal gesto ter se manifestado apenas como "brincadeira" dos alunos, lembrei-me das crianças que, como nos ensina o filósofo Nietzsche, levam muito a sério suas brincadeiras. 

Denominar-se como super-herói significa dizer que se tem super-habilidades para lidar com determinadas situações, ou que há necessidade de super-habilidades para lidar com estas situações. Não basta "ser" humano para "ser" aluno, tem que "ser" super-herói. Tem que "ser" super-herói para estudar em escolas públicas, muitas delas pichadas, depredadas e frequentadas pelos invasores que veem nestas escolas uma oportunidade para comercializarem seus produtos e se socializarem. 

Por outro lado, será que é necessário ter super-habilidades para permanecer sentado durante um longo período para estudar, ler, interpretar, pensar, e deixar de lado o namoro, o computador, o futebol e o sofá de casa?

O assunto é complexo porque está em jogo a ressignificação de métodos de estudo, de teorias da educação que não acompanharam as mudanças tecnológicas e culturais, e neste caso cabe também perguntar: a educação deve acompanhar as mudanças tecnológicas? Em que sentido deve haver uma mudança na estrutura curricular, nos métodos de ensino e na estrutura física e material do ensino?

Se há necessidade de super-habilidades para "ser" aluno, vejo igualmente a necessidade de o professor "se tornar" um super-herói para "continuar fazendo o que faz" e, sobretudo, para acompanhar as mudanças, "se virar" para competir com o "twitter", o "facebook", o "youtube" e o "whatsApp".

Escolas "salvam" muitas crianças do tráfico, da morte precoce. Professores ainda carregam um grande significado para muitas crianças e jovens. Professores ainda são modelos para muitas crianças que veem neles, exemplos de pais, de trabalhadores e também de mestres.

Porém, enquanto há o crescimento da demanda por professores que devem "se virar" para competir com as redes sociais, para serem pais, psicólogos, pedagogos, educadores, assistentes sociais e desempenharem tantas outras funções além da construção do conhecimento, não há um crescimento da valorização desta função em nossa sociedade, sobretudo pelos nossos representantes políticos.

Acredito que os meios de comunicação e as redes sociais têm como principal função a de informar, compartilhar notícias, vídeos etc. Evidente que neste processo há também uma divulgação de conhecimento, ou talvez uma "construção" de conhecimento. Mas em geral o que notamos é um excesso de informação. Assim, encontramos na sala de aula, alunos que sabem falar sobre tudo, mas que não têm conhecimento sobre nada. Seus discursos não se sustentam, não conseguem manter um debate porque não leram um livro, não pesquisaram sobre o assunto, não "construíram" o conhecimento, porque receberam informações desenfreadas e irrefletidas através das "redes". 

Com isto, não estou desvalorizando a tecnologia, nem desprezando os instrumentos que muito nos ajudam a compartilhar o conhecimento. Como professor posso utilizar o twitter ou o google em sala de aula para uma pesquisa com meus alunos, e o youtube como fonte e ilustração a respeito de um tema, ou mesmo como complemento das aulas. O que quero enfatizar é a necessidade do professor, a importância do professor, daquele que estudou, se debruçou sobre livros, ideias, autores, teorias, enfim, daquele que se cultivou nas artes, na história e no conhecimento para poder construir, juntamente com seus alunos, o conhecimento. 

O computador é interessante: é fácil mudar de vídeo quando algo nos desagrada, ou trocar de música, ver uma foto ou outra, conversar com pessoas diferentes ao mesmo tempo enquanto vemos televisão. Mas ainda não inventaram algo melhor que o "ser" humano para "mediar" o conhecimento. Como "construir" o conhecimento com apenas alguns caracteres? Como "formar-se" apenas através de notícias de hora em hora comumente divulgadas pelas tv's e redes sociais? Você deseja apenas informar-se, ou também formar-se?

Se há uma desvalorização do professor por parte da nossa política, há também, na mesma medida, uma desvalorização do aluno e do estudante. 

Nesta história, percebo que não se pode intitular nem o professor, nem o aluno como super-herói. Ambos são vítimas de um sistema histórico que desvaloriza o "ser" humano. Precisamos disseminar a importância da construção do conhecimento, e não apenas da construção de coisas, mesmo porque esta última depende da primeira. 

Constata-se que professores e alunos são vítimas. Mas vítimas de quem? Seria fácil mergulhar num processo de vitimização, responsabilizando apenas nossos representantes políticos por isso. Cabe a cada pessoa conscientizar-se das suas escolhas, daquilo que cada um elege para si como prioridade. E, em que medida espera-se e há um desejo legítimo de libertação do oprimido, como escreveu o educador Paulo Freire. E, se o oprimido não se sabe oprimido, como libertá-lo desta opressão? Quem, melhor do que aqueles que ensinam a ler, a escrever, e a interpretar o mundo? 

(Marvel Comics)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Imaginações Constrangedoras

Por Anderson Araújo
(Para Guilherme Colombini  e Wanessa Lima)
Há meses pretendo escrever sobre o que penso em relação ao Brasil nas vésperas da Copa das Confederações, sobre este Brasil que se prepara para sediar uma Copa do Mundo. Não gostaria de ser desagradável, pessimista, alguém que não consegue perceber "o lado bom" das coisas. Sempre tento dar um novo significado às coisas que me aparecem como "feias", "tristes", "negativas", postura que aprendi lendo o filósofo Nietzsche.

Todo mundo já deve ter pronunciado a frase "imagina na Copa?" alguma vez nos últimos meses. Principalmente em conversas sobre trânsito, filas, comércio, hospedagens, e agora sobre os estádios, quer dizer, ARENAS "padrão FIFA". 

Perdoem-me, mas quem não se "impactou" ou não se sentiu "incomodado" com o valor gasto nas obras dos estádios, não tem consciência de como vivem ou sobrevivem milhões de brasileiros. Dinheiro público investido em "arenas". Sim, há melhorias que veremos a médio ou longo prazo, como algumas modificações no trânsito, implantação de "BRT" etc, mas pouco significativas diante da carência do povo brasileiro. 

Continuo tentando ver o "lado bom", porém, até as entrevistas do técnico da Seleção Brasileira de Futebol, desde o anúncio da sua contratação conseguiram "atrapalhar" ainda mais a "festa", mostrando-se sempre mal-educado, ensinando com isso que um técnico, um chefe, um líder autoritário, não pode ser questionado, não aceita opiniões e que, independentemente dos resultados, vai se manter no "cargo". 

As propagandas tentam constranger todos os críticos desse evento que o Brasil vai sediar. Elas sugerem que pessoas que perguntam "imagina na Copa?" são pessimistas, "gente" que não gosta de festa. 

Imagina a festa dos grandes empresários, dos nossos representantes políticos e das empresas que financiam o espetáculo; imagina a festa das empresas que já administram estádios "padrão FIFA" reformados e construídos com dinheiro público... 

Que festa vai fazer o trabalhador que, após um longo dia de trabalho, continuará enfrentando um trânsito desumano na volta para casa? A verdadeira questão deveria ser: "Quem terá condições de participar dessa 'festa' que vem sendo planejada com tanto empenho pelos nossos representantes políticos e pelas empresas?"

Nesta minha tentativa de abordar o assunto sem ser constrangido pelas propagandas que me impedem de ser pessimista em relação à "festa", consegui dar um novo significado e ver o "lado bom" desse evento. Notei que todas os preparativos para a "festa", inauguração de estádios, e obras que se estenderão até 2014, servem para "impactar", ou em outras palavras, "acordar" todos aqueles que ainda não perceberam a capacidade que o Brasil tem de ser um país melhor. Indiscutivelmente o Brasil tem muita gente com disposição para trabalhar, construir, ajudar, e de melhorar a situação do seu próprio país e tem hoje, ao contrário de muitos países que vivem uma enorme crise financeira, dinheiro e investimento de grandes empresas!

Imagina se os nossos governantes se esforçassem para reformar e construir, creches, escolas e hospitais? Imagina a festa!

Imagina se fossem criadas várias equipes e comissões para investigarem efetivamente o funcionamento das nossas escolas e dos nossos hospitais? Imagina a festa!

Imagina se o Estado fizesse uma parceria com as empresas para construir escolas e hospitais? Imagina a festa!

Imagina se nós, brasileiros, tivéssemos realmente um espírito nacionalista e fizéssemos reivindicações pela saúde e pela educação aos representantes que elegemos? Imagina a festa!

Imagina se nós tivéssemos tanto interesse pelo desempenho dos nossos representantes políticos igual ao que temos pelo desempenho da Seleção Brasileira de Futebol? Imagina a festa!

Imagina se milhares de brasileiros deixassem de sofrer e de morrer nas filas de hospitais? Imagina a festa!

Imagina se você tivesse uma escola pública de qualidade que lhe capacitasse para entrar numa Universidade Federal sem ser necessária uma política de cotas? Imagina a festa!

Imagina se os impostos que o brasileiro paga todos os dias se transformassem em serviços gratuitos de qualidade para o brasileiro? Imagina a festa!

Constrangimento é imaginar que só poderemos fazer a festa no período da Copa do Mundo!

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Mineirão, Futebol e Educação

Por Anderson Araújo
O Oswaldo Montenegro disse em uma palestra que brasileiro entende de futebol porque acompanha futebol. Se acompanhasse a política e a economia também entenderia de política e economia. Complemento: analfabetos, pessoas com pouca escolaridade, graduados, doutores etc, todos não apenas acompanham futebol, mas são apaixonados por futebol. É verdade que esta paixão possui gradações: alguns se apaixonam, matam e morrem pela paixão, outros apenas são fiéis, cúmplices da sua paixão, e este último 'tipo' de paixão já seria bastante interessante e saudável.

Há algum tempo me sinto incomodado com os anúncios dos projetos para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Há algum tempo me sinto apaixonado pelo futebol. Há algum tempo me sinto também frustrado com o futebol. Temos "o Brasil em obras" voltado para um evento mundial que é a Copa. Tais obras certamente serão benéficas para a população brasileira: expansão de metrôs, rodovias, criação e reforma de estádios etc.

Mas me preocupo muito e me envergonho quando vejo empresas privadas lucrando escandalosamente com um espetáculo mundial que ocorrerá no Brasil. Rodovias e estádios de futebol é muito pouco para um povo tão carente e sofrido como o povo brasileiro. Cada lar de família brasileira já deve ter visto um parente ou amigo morrer por falta de atendimento ou tratamento médico. Muitos brasileiros sofrem com passagens caras e viagens longas no transporte público. E a educação? Parece que falar em educação no Brasil é um mantra que anestesia ainda mais o povo brasileiro e que se tornou piada nos ouvidos dos nossos parlamentares.

Já escrevi em outros textos que futebol liberta, educa, restaura muita gente. Muita criança só vai à escola por causa do futebol. Muita criança só estuda porque precisa ter boas notas para continuar na "escolinha" de futebol. 

Em Minas Gerais há três grandes Clubes de futebol: AméricaAtlético e Cruzeiro. Grande rivalidade, sobretudo entre atleticanos e cruzeirenses, cada torcida tem o seu jeito peculiar de torcer e falar do seu time. Apesar de possuírem as maiores torcidas e mais títulos que o América, nem o galo e nem a raposa possui um estádio. O Galo joga na "Arena" Independência, e o Cruzeiro vai jogar no Mineirão, ambos por tempo determinado, determinado por empresas privadas! É verdade que a Arena Independência pertence ao América, mas é administrado por uma empresa privada. 

Há alguns dias a imprensa mineira vem debatendo um problema: - Se os clássicos no Mineirão serão de torcida única ou de torcida dupla.  O problema não é simples. Não é apenas uma questão de contrato ou de segurança. Hoje eu ouvi o presidente do Clube Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, em entrevista ao repórter Bruno Azevedo, na rádio Itatiaia falar a respeito desse assunto. Idiossincraticamente, o presidente Kalil confirmou o que me incomoda: "O mineirão não é dos mineiros. O Atlético e o Cruzeiro são dos mineiros. O mineirão é de uma empresa privada que quer liquidar o futebol mineiro"

O Alexandre Kalil disse em tom de desabafo sobretudo para mostrar que não é simplesmente uma questão de "quem manda aqui é o Atlético ou é o Cruzeiro", mas sim uma questão política que envolve muito dinheiro que não será nem dos Clubes Mineiros nem do governo de Minas Gerais, mas da empresa Minas Arena. Nesse sentido, Kalil disse: "O Mineirão é o orgulho de uma construtora, da Minas Arena, não é orgulho dos Mineiros... o Mineirão é de uma empresa privada, não é dos Mineiros".

Como torcedor quero expressar o que penso a respeito do problema torcida única ou dupla. Primeiramente sobre o Independência: É IMPOSSÍVEL um clássico Atlético X Cruzeiro de torcida única. Não há segurança no trajeto do centro da cidade até o estádio, além de a localização do estádio ser mais favorável para o embate entre torcidas rivais, principalmente porque o seu entorno é tomado por residências. O metrô que seria o meio mais fácil de acesso ao estádio não comportaria duas torcidas em dia de clássico, certamente haveria tragédia! Quanto ao Mineirão, tradicionalmente comportou duas torcidas em dias de clássico. Para isso demanda muito trabalho, esforço, planejamento e estratégia por parte da polícia, do governo e dos dirigentes dos Clubes para "garantir" a paz entre os torcedores.

Vou anestesiar os ouvidos de alguns e soltar uma piada nos ouvidos de outros. Mas penso que o problema não é a segurança, mas a EDUCAÇÃO. Muitos torcedores esquecem-se de que são humanos e de que os torcedores rivais também são humanos em dias de clássico. 

Uma amiga me disse que o Lula "deu" a comida para o povo brasileiro ao tirar milhares da miséria. E agora é a vez da Dilma de "dar" educação. Se não deram isso efetivamente, independentemente da nossa empatia por estas personalidades, com certeza deram passos significativos para o fim da miséria e o crescimento das Universidades. Estudar de "barriga vazia" não dá. O que você vai pensar com fome? Em política, respeito, cidadania? Não, você vai pensar apenas em pão, carne, bolo etc! O brasileiro está comendo mais e melhor. Houve um crescimento das vagas nas Universidades Federais. Mas não apenas a Dilma, todos os nossos políticos precisam se preocupar ainda mais com as escolas e com a educação em geral, da creche ao ensino superior. Mais livro para os alunos, mais escolas, mais formação para os professores, e um salário que não HUMILHE os educadores - e quando isso estiver em primeiro lugar - talvez será mais fácil falar em segurança nos dias de clássico, será mais fácil "ensinar" a consumir, ensinar a votar, ensinar a comer, enfim, ensinar a RESPEITAR! 

O Kalil me incomodou ainda mais. Falar que o MINEIRÃO não é dos MINEIROS é falar que o BRASIL não é dos BRASILEIROS. Que os dirigentes do futebol mineiro, nossos parlamentares e o governador de MG resgatem o que pertence aos mineiros! 


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nós não estamos prontos

Por Anderson Araújo
É difícil definir exatamente o que estamos sentindo numa época que ocorrem mudanças tão rápidas! Não dá tempo para sentir o presente, nem a dor, nem a alegria. O mesmo telejornal que anuncia a morte de alguém, também anuncia em instantes, o nascimento e a vida. O mesmo programa que incentiva as pessoas a praticarem esportes, também incentiva o consumismo. Já notaram a quantidade de programas relacionados à culinária? Somos pressionados: a comer, a consumir, a correr, a economizar e, a amar. 

Notem que somos "pressionados", intimidados a seguir o "rebanho", ou se quiserem, a "massa". Celulares e carros descartáveis. Precisamos estudar, fazer concursos, bater recordes, superar metas e também amar. Uma sociedade que incentiva o consumo não nos ensina a amar, não nos ensina a sermos "inteiros". Nesta sociedade de revistas eletrônicas somos apenas marionetes, jogados aqui e ali para comprar!

Se nós, adultos, temos "pouco" tempo ou poucas condições de refletirmos sobre tudo o que está ocorrendo, como uma criança poderá, sozinha, pensar sobre as armadilhas da TV, da internet e das redes sociais? Muitos pais estão abandonando seus filhos em casa, "seguros", diante da TV e dos computadores. Não há pessoa alguma ao lado delas para dizer que a propaganda é enganosa, não há ninguém perto delas para dizer que você não vai ficar tão bonita quanto aquela atriz se você usar aquele produto. É o pai, a mãe, ou o "cuidador" que vai situar a criança na vida "como ela é". 

E a "vida como ela é" exige esforço, treino, dedicação, trabalho e transpiração caso você queira comprar coisas, emagrecer, ganhar massa, formar-se e ter uma profissão. A vida é dor e alegria, nascimento e morte. Não somos personagens de desenhos animados: nós nos machucamos quando caímos. Sentimos tristeza. Sofremos com a morte dos outros, sofremos com a dor dos outros ao nosso redor. A dor provoca tristeza, mas é um sentimento que nos aproxima de nós mesmos e daqueles que realmente são significativos em nossas vidas. É importante SENTIR. 

Quantos lutos não vividos, não sentidos... 

Nesta obrigação de sermos felizes a todo custo vamos distanciando-nos de nós mesmos, dos nossos amigos, dos nossos pais e dos nossos filhos. A felicidade que as revistas e os programas de TV mostram é uma felicidade "instantânea", "imediata". O que nos ensinam é que há apenas um modelo de felicidade. E, ao seguir este modelo, você deve consumir. Mas não existe apenas um meio de ser feliz ou um caminho para a felicidade. A sua felicidade deve ser construída, inventada por você. Não há receita, não há modelo. Assim, para uma pessoa a felicidade pode consistir em diversos projetos de vida. Enquanto para outra não é necessário um projeto de vida, mas apenas viver o presente. 

José pode ser feliz cuidando da terra, plantando, colhendo ou capinando um lote. Maria pode ser feliz cozinhando para uma família ou para seus filhos. João encontra a sua felicidade jogando bola com os seus amigos. Luiz se realiza cuidando da segurança da sua cidade. Caetano se sente feliz compondo e cantando. Neste sentido, a felicidade de algumas pessoas consiste em contribuir para a felicidade dos outros, ou não. O mais importante é perceber que cada pessoa é livre para encontrar o seu caminho, para encontrar a sua felicidade, seja na TV, no futebol, na empresa ou na escola. E que se é livre mesmo quando escolhemos trilhar os caminhos que os outros fizeram para nós. 

Por isso o maior desafio para todos é, antes de educar o outro, educar-se. Educar-se significa também estar preparado para perceber que não estamos "prontos". Estamos "em construção" constante. Não somos perfeitos. Somos suscetíveis e influenciáveis. Daí a necessidade de abrir a mente para outras perspectivas, para novas leituras, viagens e conhecimentos. Se estamos "em construção", estamos aprendendo a amar também. Sentimos raiva, dor, amor, alegria e tristeza. Decepcionamo-nos e decepcionamos os outros. Mas podemos nos tornar pessoas melhores. Conscientizar-se disso pode tornar a construção mais forte. Saber disso pode nos ajudar a perceber as pressões externas e a fugir delas. Conscientizar-se disso pode nos ensinar a amar. 

É neste processo de formação de si mesmo que o pai, a mãe e o educador vão se tornar "preparados" para educar. O carinho, o amor e a presença dos pais tornam-se mais importantes do que o presente. Tomar sorvete na praça é mais barato. Além disso, na praça você está mais presente do que no shopping. Assistir ao pôr-do-sol leva você para dentro de si mesmo. Ir ao shopping pode ser divertido mas leva você para fora de si mesmo. Consumir "doses" de felicidade custa caro, enquanto não é necessário pagar para amar.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Os Vilões e a Coragem

Por Anderson Araújo
(Para Daniel Campos)

Nossos sentimentos e nossas paixões tendem quase sempre ao excesso ou à deficiência (falta). Em relação à coragem não seria diferente. O filósofo Aristóteles classifica a coragem como virtude entre dois vícios. A deficiência ou falta de coragem denomina-se covardia. E o excesso de coragem pode ser classificado como temeridade. É covarde todo aquele que não consegue enfrentar o seu medo e deixa-se paralisar pelo sentimento de medo. O excesso de coragem também é ruim, pois aquele que age sem temer a nada, põe a sua vida em risco por motivo algum, torna-se temerário.

Desse modo, é necessário o medo na ação para que ela possa ser considerada corajosa, sobretudo na coragem heróica. O herói não é aquele que não tem medo ou que age sem medo. O herói é aquele que enfrenta o seu medo, coloca a sua vida em risco para o benefício do outro, para salvar o outro. 

Por isso poderíamos dizer que os super-heróis não são corajosos? Os seres humanos são corajosos. O super-herói em geral, dos quadrinhos e do cinema, não coloca a sua vida em risco. Ele teria uma atitude do herói: a  ação voltada para o benefício dos outros. Mas quando, por exemplo, o super-homem entra num prédio em chamas para salvar uma pessoa, ele sabe que não há risco nesta ação. Por outro lado, um homem, que pode ser um bombeiro, quando entra num prédio em chamas, coloca a sua vida em risco para salvar a vida dos outros. Logo, neste caso vemos uma ação corajosa.

Nos últimos dias aprendi com um aluno durante uma aula sobre o tema em questão, outra perspectiva, outra leitura da ação do super-herói, que até então não havia parado para pensar, nem havia percebido. Os vilões, os monstros etc, atuam com a função de fazer, de tornar o super-herói corajoso. Pois se o prédio em chamas não traz medo ao super-homem, um vilão mais forte ou com criptonita certamente faz com que o super-homem coloque a sua vida em risco para salvar uma pessoa. Os vilões fazem com que os super-heróis se superem, enfrentem grandes desafios.

Pode-se também classificar os super-heróis como virtuosos e principalmente, corajosos, mantendo as duas características: o agente deve colocar a sua vida em risco para salvar o outro. Aprendi a reconhecer a "função", o "papel" dos "vilões" não apenas na vida dos super-heróis, mas também na vida dos seres humanos, a fome, o desemprego, a doença, a corrupção principalmente no Brasil, são "vilões" e fazem com que nos tornemos ainda mais corajosos quando enfrentamos todos esses desafios. Neste sentido, podemos continuar a reflexão sobre o assunto citando Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem"

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Provocações Filosóficas e os Direitos dos Animais


Por Anderson Araújo
(Para Thaís  Rodrigues  e Michelle Santos)

Naquela aula estudávamos um texto relacionado à "Ética e os direitos dos animais". Tínhamos que pensar primeiramente na posição de alguns filósofos da História da Filosofia sobre o tema em questão. Aristóteles, René Descartes, Kant e a filosofia utilitarista nos serviram de base para iniciarmos as discussões. 

As problematizações começaram a aparecer. Será que os animais não humanos têm alma? Consciência? Memória? Quais os critérios que nos permitem defender a vida dos animais, e mais precisamente o direito a continuarem vivendo? Quais são as principais diferenças entre os animais e os homens? Algumas dessas diferenças nos permitiriam estabelecer uma hierarquia entre nós, animais humanos e os outros animais não humanos?

Como podemos defender os nossos hábitos de matarmos os animais para nos alimentarmos deles? Em que sentido poderíamos justificar esta ação? Alguns teóricos defendem esta ação apenas com a finalidade de "matar" a fome humana em condições limites de sobrevivência, como por exemplo na ausência de qualquer alimento, no caso de uma sobrevivência na natureza selvagem. Nesta perspectiva, como somos capazes de plantar e colher, cultivar legumes e verduras, fazer bolo, queijo e biscoitos com leite de todos os tipos, não seria necessário matar um porco, um boi ou pato para nos alimentarmos deles.

Há também aqueles que defendem o consumo apenas da carne do animal que não sofre ao morrer. Neste caso, poderíamos pensar no modo como os animais são mortos, e ainda, se há algum animal que não sofre ao morrer, ou seja, que não sente dor aos ser morto por algo ou alguém. Não vou entrar aqui nas particularidades deste tema tão complexo e discutido sobretudo por vegetarianos e por alguns pensadores, por exemplo, o filósofo Peter Singer. 

Ser vegetariano ou não? Esta é UMA das PROVOCAÇÕES que tenho feito aos meus alunos nas aulas sobre este tema. A questão motivadora deste texto é a pergunta que uma aluna me fez relacionada a este assunto e à filosofia geral. Primeiro, o fato de eu não ser um vegetariano. Segundo, o fato de eu, um professor de filosofia levantar tantos problemas sobre a vida, uma vez que já temos tantos problemas. 

A pergunta desta minha nobre aluna me incomodou, assim como o tema vem causando incômodo aos meus alunos. Principalmente porque vivemos numa cultura que popularizou os churrascos e churrasquinhos.

Como educador, pensador e professor de filosofia, tenho a dizer que a minha função é de fazer provocações. Ainda que eu não seja um vegetariano, tenho que fazer algumas problematizações. Provocar os meus alunos, pois é isso que a filosofia faz com o estudante. Algumas vezes eu terei que assumir, inclusive, uma posição contrária à minha para defender o ponto de vista ou a teoria de um filósofo. Com a filosofia aprendemos a provocar e a fazer investigações a partir das provocações que recebemos dos pensadores. Sinto-me também incomodado com o fato de comer carne animal. Talvez esta problematização nos sirva para repensarmos os nossos hábitos. Para  pelo menos diminuirmos o nosso consumo de carne e comer mais frutas e grãos, tomar leite e seus derivados... E devemos, ainda que não sejamos vegetarianos, pensar no modo como enxergamos os animais não humanos. 

O tema exige um amplo estudo. Este texto, assim como a filosofia, quer antes de qualquer coisa, provocar, incomodar o leitor. A filosofia nos ensina que precisamos conhecer e analisar diversos pontos de vista para escolhermos um, ou alguns, ou ainda, não escolhermos nenhum deles. Depois de um amplo estudo sobre os direitos dos animais, cabe à cada pessoa pensar e, livremente, optar pelos seus hábitos alimentares. Independentemente disso, precisamos problematizar para tomarmos uma posição mais consciente diante das coisas e do mundo. Algumas pessoas são atropeladas pelos problemas porque nunca pararam para pensar neles.

Há pessoas que nunca pensaram no consumo de carne animal. Outras já pensaram, mas não veem o tema como problema. E algumas pensaram, estudaram e abandonaram o consumo de carne. E há pessoas que continuam pensando e se incomodando com o problema. Pensar no consumo de carne animal e nos direitos dos animais é necessário, sobretudo quando se fala em sustentabilidade, liberdade, caridade e justiça. Assim como é necessário pensarmos em vários problemas que nunca vimos como problemas, apesar dos problemas pessoais, sociais e planetários que já temos. Apesar de tudo, não apenas provoco, mas neste caso defendo explicitamente uma postura de protesto contra o abandono de animais e contra maus tratos. O abandono de animais é crime e deve ser penalizado. De repente, todos os problemas têm causas ou origens semelhantes, assim como também teriam soluções semelhantes. Mas isso também é apenas é uma provocação - não menos importante.

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Solidariedade: coexistência

Anderson Araújo
O filósofo John Stuart Mill esclarece em seu livro "Utilitarismo" alguns argumentos sobre a teoria ética do utilitarismo. Apresenta o utilitarismo como uma teoria ética que busca maximizar a felicidade geral, ou seja, "aumentar a felicidade da maioria das pessoas". Neste caso, ser utilitarista significa promover a felicidade geral. Para isso pode ser necessário o auto-sacrifício do agente, pois este teria que, em algumas situações, abdicar da sua felicidade para tornar outras pessoas felizes. 

É uma teoria que, sem dúvida, é totalmente contrária a uma postura egoísta. Por isso o utilitarismo é uma das teorias éticas mais altruístas que existe. Pois está sempre pensando na felicidade dos outros como objetivo (fim) das suas ações. 

Para Stuart Mill o ser humano tem uma natureza social. Isso significa que temos, naturalmente, uma empatia pelo outro (ser humano) e por este motivo, vamos sempre desejar o bem do outro. Logo, entre a minha felicidade e a felicidade da maioria, eu teria que optar pela segunda. Será que teríamos razões para defender esta ideia de que o ser humano possui uma natureza social? A experiência nos diz que, uma vez inseridos no processo de socialização, podemos aprender a conviver pacificamente com os outros. Mas esta mesma experiência também nos diz que o ser humano é bastante competitivo e tende quase sempre a pensar em si mesmo, até mesmo como estratégia de sobrevivência. 

Ser altruísta ou egoísta não seriam posições que dependem de educação? O altruísmo, ser solidário ao outro, é algo que se aprende ainda nas brincadeiras de criança: compartilhar o brinquedo com o amigo ou até mesmo doá-lo para as crianças carentes. A felicidade do outro torna-se minha preocupação quando aprendo que o outro pode não ter sido tão privilegiado o quanto eu fui. E aí descubro que há muitas razões para dividir o que tenho ou acumulo.

A teoria do utilitarismo é acusada de ser exigente. Mas Stuart Mill lembra que é apenas uma orientação e não um dever ou obrigação. Por isso você não será punido pelos outros por não ter sido solidário ou por não ter se sacrificado pela felicidade da maioria. Se temos uma natureza social, nós mesmos vamos nos punir -  a nossa consciência que vai nos dizer que poderíamos ter agido de outra maneira. Mais uma vez, entendo que esta consciência, ou se quisermos, culpa, só pode ser sentida por aqueles que foram educados na prática solidária. 

Stuart Mill ainda defende uma compatibilidade entre o utilitarismo e a justiça. Pois ambos preocupam-se com o contexto das ações humanas. Cada caso deve ser analisado de acordo com as circunstâncias. Algumas ações consideradas normalmente como ações moralmente ruins podem ser consideradas boas ou necessárias quando a vida e a felicidade de uma maioria está em jogo, como mentir para salvar a vida de alguém de um provável assassinato, ou o roubo de comida no caso de uma pessoa miserável e que está passando fome.

Uma conclusão provisória. A coexistência de pessoas felizes deveria ser um norteador de todo programa educacional, ético e de governo. Posso ser feliz com o outro sem que eu tenha que abrir mão da minha felicidade. Compartilhar, ser altruísta ou utilitarista pode ser fácil, sem que seja necessário o auto-sacrifício do agente. Basta aprendermos a seguir menos a lógica destrutiva do mercado da acumulação. Compartilhar e dividir o que se tem, e principalmente o que se acumula. 

sábado, 1 de outubro de 2011

O Brasil e o "Jeitinho Brasileiro"

Por Anderson Araújo
Sinto-me envergonhado como cidadão brasileiro, apesar de perceber as inúmeras qualidades e características nobres, belas e peculiares ao povo brasileiro, tais como generosidade, alegria e criatividade (que inclui a arte e os esportes em geral); sem falar na capacidade que o brasileiro e a brasileira têm de se esforçar para superar a miséria (na mesa, na saúde e na educação). 

Poderíamos enumerar grandes exemplos de superação, HONESTIDADE e generosidade.  Mas como brasileiro, professor e, pensador, gostaria de expressar a minha indignação e revolta em relação ao famoso "jeitinho brasileiro". Quero deixar claro que não tenho um olhar ingênuo e romântico em relação a outros países, sobretudo da Europa. Há corrupção, mentira e crimes em todos os lugares do mundo! Mas há algo em nossa cultura que sempre é visto com um sorriso "malandro" por parte de muitas pessoas, o jeitinho de fazer o que não pode, o jeitinho de burlar a lei, de enganar o outro e de furar a fila, por exemplo. 

A mãe de CARÁTER nobre ensina ao filho: "Devolva ao outro o que não é seu". Mas a cultura da ESPERTEZA diz que você deve acumular e ganhar sem ter trabalhado ou aproveitar da ingenuidade do outro. A fala da mãe de CARÁTER nobre é vista por muitos como "boba" e "ingênua". 

E então vêm os políticos e a corrupção. Denúncias de fraudes, "lavagem de dinheiro", "laranjas", "Caixa 2" aumento desmedido e SEM MÉRITOS dos próprios salários etc. Crescem as filas nos hospitais e o descaso com médicos e, professores. As crianças crescem com a imagem corrupta dos políticos e, pior, com a imagem da IMPUNIDADE. Os maus exemplos ganham espaço nos meios de comunicação. É verdade, cresceram também as denúncias. Mas pouco vimos ou quase não vimos um político ou outro cidadão SUSPEITO ou ACUSADO de fraude e de corrupção ser punido. 

Vemos vídeos, ouvimos ligações telefônicas como provas de que houve corrupção e, em outras palavras, vimos os CRIMES serem cometidos. Mas vimos e ouvimos também os CRIMINOSOS desmentirem e rirem na frente das câmeras e dormirem em paz, em casa, e não na prisão, lugar de criminosos. 

Por que podemos caracterizar este JEITINHO como BRASILEIRO? Para responder a esta questão, recorro a uma das inúmeras frases e ideias do pensador e músico Tico Santa Cruz, que vem protestando com frequência nos shows, caminhadas e redes sociais contra este jeitinho: "Lembrem-se disso: corrupção existe em todo lugar do mundo! Impunidade é coisa nossa!". Se o Brasil é o país dos maus exemplos é porque os maus exemplos não são punidos. 

Contra o jeitinho brasileiro: leis que sejam executadas e respeitadas. Os cidadãos, ladrões de galinha ou dos cofres públicos devem ser punidos de modo exemplar. Este modo deve ter como principal objetivo mostrar aos outros que determinadas ações não são nem permitidas, nem engraçadas. Privação da liberdade? Pena de morte? Prisão perpétua? São modos que merecem debates e um julgamento de toda a população brasileira.

Independente da ação dos nossos governantes e das nossas autoridades, é necessário encontrar meios de proliferar os bons exemplos, de emancipar o olhar da criança e do adolescente e principalmente dos pais e educadores em geral. Educador não é apenas o professor, mas também o pai, o político, o faxineiro, o músico, o ator e o jogador de futebol. Educador é todo aquele que influencia a vida das crianças. Se você tem este poder e deseja mudar o jeitinho brasileiro, dê o seu recado e o seu exemplo. Que as ações contra o desagradável e criminoso "jeitinho" sirvam para promover a paz, a harmonia e a não-violência. 

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O "Caso Neymar" e o Problema da Autoridade

Por Anderson Araújo

Como você ensina a uma criança que ela precisa respeitar ou seguir algumas regras para não apenas viver em sociedade, mas conviver bem com os outros? Geralmente as crianças têm dificuldade para enxergar isso. Logo que a criança inicia o seu processo de socialização ela precisa aprender as regras e as normas do grupo: compartilhar ou não brinquedos, a proibição de mexer nas coisas das outras pessoas, cumprir horários etc.

Em minhas experiências com o ensino de ética para crianças e pré-adolescentes sempre utilizei a imagem do esporte, sobretudo a do futebol para falar das regras necessárias para nos comportarmos no convívio com o outro. Um jogo de futebol possui várias regras que, não respeitadas geram punições como cartões amarelo ou vermelho: "a regra é clara". Todo jogador deve saber como se portar em campo para não ser penalizado e pode, inclusive, ser expulso de campo dependendo da intensidade das faltas ou da gravidade da sua conduta em campo.

Além disso, todo time possui uma autoridade, o técnico ou comandante, também chamado por muitos atletas de "professor". Ele é responsável por treinar a equipe e por isso conhece bem os seus jogadores. A autoridade deve ser reconhecida e, portanto, respeitada. Este reconhecimento é condição necessária para que haja harmonia na equipe e sintonia na execução dos comandos do técnico.

Podemos transferir todas as características do técnico para um pai, um professor, um gestor, um líder ou um chefe, ou seja, para posições de autoridade. Toda autoridade sempre foi e é questionada, sobretudo pelo adolescente. O problema é que muitos pais ou autoridades terminam cedendo às vontades da criança ou do adolescente. O pai precisa escutar o filho, dialogar com o filho, para que a conduta não fique caracterizada como autoritária. Mas compreender uma criança ou um adolescente não significa que se deva acatar a opinião dele ou dela.

Um fato recente no futebol vem gerando muita discussão em todos os lugares. O jovem atacante do Santos, Neymar, insultou o técnico do time, Dorival Júnior, após ser proibido de bater um pênalti na partida contra o Atlético-GO (15/09/10). Diante disso, o técnico resolveu punir o jogador santista, deixando-o de fora da próxima partida e possivelmente de outras para que o "menino da Vila" refletisse sobre a sua conduta. Muitas pessoas discordaram dessa decisão do técnico, inclusive os dirigentes do clube, que decidiram em acordo com Dorival, pela demissão do comandante, campeão do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil com o time do Santos neste ano de 2010.

Desconhecemos questões internas do Clube. Mas a nossa análise dos fatos nos sugere que o técnico agiu como deveria agir uma autoridade. Na minha visão ele não agiu com autoritarismo. A atitude do técnico revelou uma preocupação com o jovem atleta e com o grupo dos jogadores. Neymar não reconheceu a autoridade do técnico, não seguiu as regras. O "menino" quis que a sua vontade fosse soberana. Enquanto o técnico sinalizou que se deve respeitar algumas decisões para o sucesso da equipe. A decisão da autoridade revela que mesmo o mais belo, o mais inteligente ou aquele que tem a melhor remuneração em relação aos outros integrantes do grupo deve seguir algumas regras.

É fato que Neymar é a estrela do time. Pode-se e deve-se respeitar os fatos e o talento dele; mas também deve-se preservar as normas de boa convivência. Futebol é exemplo para muita criança, sobretudo na vida daquelas que veem nele uma salvação em suas vidas. Futebol é inspiração e motivação. Futebol restaura a vida de muitos jovens. Futebol educa e mostra a importância da equipe e de um maestro. Futebol ensina disciplina, e é exemplo de que educar não é castigar, mas mostrar limites. Futebol ensina que autoridade é diferente de autoritarismo. Pois não é obediência inquestionável, mas direcionamento, orientação e referência.

Que o Neymar continue inspirando muitas crianças a acreditarem no esforço, na importância do treino e da disciplina, apesar de o recente episódio ter demonstrado que ele ainda não sabe lidar com autoridade. Termino este post com a seguinte problematização: o problema é o Neymar que se posiciona como soberano, ou as autoridades em torno dele que fazem dele um rei? É a criança que "manda no pai" ou é o pai que permite a soberania precoce do filho?

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Autoridade X Autoritarismo

Por Anderson Araújo

As pessoas tendem a recorrer a instrumentos quando perdem o poder ou quando o seu poder não é reconhecido. A filósofa Hannah Arendt diz que a violência se distingue do poder pelo seu caráter instrumental, ou seja, pelo uso de instrumentos e de armas.

De certa forma o ser humano busca sempre o poder. Isso pode soar estranho aos ouvidos de muita gente, porque conhecemos através da História grandes tragédias e guerras pelo poder. Logo, é porque estamos acostumados com uma face negativa do poder que o julgamos como algo negativo, motivo de guerras, traições e violência em geral.

Digo que todos buscamos o poder no sentido definido pelo filósofo Michel Foucault, no sentido de que poder é apoio, consentimento, voto. Para tanto, só possui o poder aquele que tem o reconhecimento dos outros, enfim o respeito. Com o uso de instrumentos obtemos qualquer outra coisa, menos o poder legítimo. Com o uso de armas obtém-se uma obediência baseada no medo: o medo de ser punido, machucado ou até mesmo de perder a vida.

Desse modo podemos inserir o tema "autoridade e autoritarismo". Um pai é autoridade, um chefe e um professor também. Reconhecemos o lugar de cada um deles em nossas relações; merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Mas este apoio é conquistado. Seja por um carisma ou pela "função" que desempenha nesta relação.

A relação entre pais e filhos merece mais a nossa atenção. Sobretudo porque se tem discutido muito nos últimos dias sobre a lei que proíbe palmadas. A relação entre pais e filhos é genuinamente uma relação de poder. Por isso, de certa maneira, o que está em jogo na indisciplina da criança é o fato de que a autoridade não foi respeitada. O diálogo é o meio legítimo para que se estabeleça o poder ou para que ele seja reconhecido.

Muitas pessoas têm preguiça de dialogar ou até nem sabem fazê-lo. Mas é o meio mais eficaz e humano de restabelecer o poder e de educar as crianças. Muitos pais também confundem a ideia de diálogo, pensando que dialogar é ceder sempre e acatar todas as decisões da criança. Diálogo não é isso. Diálogo é esclarecimento, respeito, escuta e momento oportuno para mostrar à criança que ela tem o poder de ser escutada, ainda que ela esteja errada ou equivocada sobre certas atitudes e decisões. Cabe aos pais mostrar o erro ou o equívoco da criança e de esclarecer inclusive que, acerca de alguns assuntos, não cabe ainda à criança a tomada de decisões.

Nós ouvimos uma autoridade e dialogamos com ela, expressando nossas opiniões. Numa relação autoritária, de autoritarismo, nós obedecemos porque temos medo: medo de que o outro grite conosco ou fale mais alto; medo de perder o emprego; medo de perder a "mesada" ou no caso da criança, de levar uma palmada. Um poder autoritário é um falso poder, pois é reconhecido pelo sentimento de medo ao qual uma pessoa é submetida. Enquanto na relação com uma autoridade o diálogo favorece a circulação do poder entre as partes, no autoritarismo não há reconhecimento do poder do outro, mas submissão de uma das partes.

"Eu não concordo com nenhuma palavra do que dizeis, mas eu defenderei até a morte o seu direito de dizê-la". (Voltaire)



sexta-feira, 16 de julho de 2010

Educação, uma Emancipação do Olhar

Por Anderson Araújo

O filósofo Platão nos apresenta em seu livro República, a Imagem da Caverna, mais conhecida como Mito da Caverna. Na Imagem da Caverna, temos uma situação onde se encontram homens presos por correntes, desde crianças, no interior de uma caverna. Eles estão presos de tal modo que não podem mover o pescoço, logo, são obrigados a olhar para frente eternamente. E o que eles vêem, eternamente? Sombras de objetos projetadas por um fogo na parede da caverna. Acontece que um deles é libertado e tem a oportunidade de olhar o mundo a partir de um outro lugar, a saber, fora da caverna. Um prisioneiro é solto e pode conhecer os objetos que eram projetados pelo fogo na parede da caverna, e ele pode ainda mais, sair da caverna e ver o sol.

Ora, o mesmo se passa conosco, afirma Sócrates, a respeito da nossa condição humana. Dizemos condição humana, porque somos homens que vivemos no mundo, e, porque vivemos no mundo, relacionamo-nos com homens no mundo. E, imersos em relacionamentos humanos, no mundo, somos sujeitos a diversas posições a respeito de nós mesmos e do mundo. E essas posições nem sempre são fruto de reflexões, ou de imagens críticas de nós mesmos e do mundo. Muitas vezes, são imagens distorcidas, tomadas como “a verdade”, “o sentido”, “o real”, caracterizadas por serem eleitas na ausência de reflexão.

Assim, não cabe à educação propor a visão de uma verdade ou do real, mas condições de possibilidades que nos permitem ser facilitadores da visão dos diversos sentidos de mundo, diria o educador Paulo Freire. Platão e a Imagem da Caverna nos orientam nesta posição. Pois, estamos falando de uma educação do olhar. Na língua grega há diversos modos do verbo “ver” que se ligam a modos de conhecimento. Assim, o verbo “ver” é utilizado muitas vezes pelos gregos para se referirem às muitas formas de conhecimento.

Retornemos, pois, à caverna. Os prisioneiros eram obrigados a ver sempre as mesmas coisas, tinham o olhar orientado para uma única direção. Eles poderiam refletir sobre o que viam? Sim. No entanto, somente sobre o que lhes era apresentado. Não podiam caminhar e buscar uma outra imagem, não tinham um olhar emancipado. Podiam, talvez, fechar os olhos. A liberdade dos prisioneiros se resumiria, talvez, nesta possibilidade de fechar os olhos. Mas, também, nem não sabiam ou nem quereriam, uma vez que não tinham outras possibilidades de “passar o tempo” e de se divertirem.

Mas, um dos prisioneiros tem a oportunidade de ver “mais”, de conhecer melhor o mundo. E, aqui, apontamos para uma condição de possibilidade de uma educação que emancipa o olhar. É uma educação que oportuniza meios, ou momentos, para que o educando ou o aluno, possa ver “mais”. Não é a idéia de ver muito mais, como adição na matemática. Mas, que oportuniza pelo menos mais de uma visão acerca de si mesmo e acerca do mundo.

A educação assumiria, então, as posições de mãe ou de pai, porque usamos o termo emancipação. No entanto, ela é um pai-mãe “ideal”. É o que o professor, o facilitador ou o educador faz com o seu aluno. A educação seria justamente o contrário de um paternalismo. Ela deve emancipar o olhar do aluno. E o desafio para o professor “facilitador” é o de mostrar para o aluno que ele é sujeito, portanto, homem dotado de uma capacidade reflexiva que o permite conhecer sentidos do mundo, e que o torna capaz de escolher ou não, alguns sentidos do mundo. Educação seria, talvez, mostrar, sutilmente, a possibilidade de uma vida sem os pais, logo, a tarefa do educador é, neste sentido, emancipar o olhar do aluno.

Assim, pensamos que a educação teria, de um lado, o privilégio de poder corrigir o olhar das pessoas. E, por outro lado, o professor teria que ser um polýtropon, palavra grega que significa “aquele que se vira de muitos modos”. O professor teria que, primeiramente, estar, não emancipado, mas no processo de emancipação do olhar. Pois, sabemos que o conhecimento se dá num processo, e não podemos, se estivermos numa atitude reflexiva e, portanto, filosófica, apontar para uma posição totalmente emancipada, segura de si, dogmática.

O professor teria que, então, antes de cuidar para que aconteça a emancipação dos outros, estar, ele mesmo, no processo emancipatório. Ele deve cuidar-se de si, ocupar-se de si. Só então ele poderá ocupar-se dos outros. Assim, a educação assume também um caráter terapêutico, mas despretensioso. Porque não podemos pensar na relação professor-aluno como uma relação de mestre e discípulo, mas numa relação que é construída entre sujeitos. Enquanto possibilito que o outro veja outros sentidos de mundo, também conheço, através dele, outros sentidos de mundo, e, juntos, construímos outros sentidos de mundo.

Assim, uma educação que liberta, e que por isso mesmo é humana, é aquela que se preocupa com o olhar das pessoas. E, para que ela ocorra, faz-se necessário que o professor seja um polýtropon despretensioso, que ele não tenha a intenção de agradar ou de “bajular” o olhar do aluno, mas que se vire de muitos modos para libertar o olhar do aluno de uma única imagem, ou melhor, que ele aponte pelo menos possibilidades que permitam ao aluno escolher se deseja se libertar ou não, de uma imagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORNHEIM, Gerd. Introdução ao Filosofar. Porto Alegre: Globo, 1978. p.47-80.

PLATÃO, A República. Trad. Carlos Alberto Nunes. 3ª ed. Belém: EDUFPA, 2000. p.319-357.



sexta-feira, 2 de julho de 2010

Virtudes e o Mito do Sucesso do Mau Aluno

Por Anderson Araújo

O filósofo Aristóteles nos ensina que a virtude, assim como os vícios, são hábitos, coisas que fazemos com frequência. Quando os hábitos são bons, temos a virtude. O contrário, hábitos ruins, produzem vícios. Além disso, é importante notar que toda virtude é sempre um equilíbrio entre o excesso e a falta.

Exemplificando, podemos imaginar a vida de uma pessoa quanto à prática de atividade física. Aquela pessoa que treina diariamente um esporte, ou que pratica uma caminhada diária de 1h, pode ser considerada virtuosa. A prática deve ser regular para ser classificada como virtude, mas não pode ser executada em excesso.

Um jovem é virtuoso quando se dedica quatro horas diárias ao estudo e, além disso, faz atividade física, conversa com os amigos e convive com a família. No entanto, se o jovem passa a se dedicar 10 horas diárias ao estudo e, com isso, deixa de se relacionar com os amigos e com a família, e não faz atividade física, fica claro que ele está se excedendo em sua ação, logo, estudar neste caso não deve ser considerada uma virtude.

Toda virtude é sempre um equilíbrio e também esforço. Poucas pessoas têm talentos naturais para fazer determinadas coisas. Os atletas só se realizam e alcançam medalhas devido ao tempo que se dedicam aos treinos. E mesmo quando alcançam pódios, continuam a treinar. Porque sabem que sem o treino, sem o esforço, não alcançarão a vitória.

Existe o mito do sucesso do mau aluno, tema já apresentado pelo consultor de carreiras Max Geringer no seu programa diário na rádio CBN. As pessoas divulgam a ideia de que mesmo o mau aluno pode ter sucesso na sua carreira. O que é verdade, embora não se fale que ele terá mais dificuldade do que o bom aluno.

Quem é o mau aluno? É aquele que não tem compromisso, que não respeita nem os pais, nem os professores (autoridades). Além de ter dificuldade para cumprir compromissos, como chegar no horário, o mau aluno enfrentará dificuldades de se relacionar com os seus superiores (chefes, gerentes), pois não estava habituado a ver os pais e professores como autoridades.

Se toda virtude é sempre um esforço, aquele que se esforça terá mais facilidade de se adaptar a regras e horários, e portanto, de se relacionar melhor no seu ambiente de estudo e de trabalho.

No próximo texto vou refletir sobre virtude e mediocridade.

domingo, 16 de maio de 2010

Sentimento

Por Anderson Araújo

Estudar fica mais leve e mais prazeroso quando reconhecemos o valor do estudo entre outros valores. Por que será tão difícil criar a disciplina ou o hábito de sentar e ler um livro ou fazer uma tarefa? Porque isso geralmente lembra uma condenação para muitas pessoas. Porque a nossa cultura habituou-se em castigar as crianças por meio dos estudos. O ato de estudar deve ser algo prazeroso, como uma brincadeira, sobretudo porque brincadeira de criança é muito séria: só pode brincar quem aceita a verdade contida no "faz de conta".

(A arte na pedra é do "Frater Henrique"- Igarapé/MG).

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Imitação ou Invenção

Por Anderson Araújo

Toda criança passa por um processo de aprendizagem quando vem ao mundo, processo que em sociologia chamamos de socialização. Ela precisa imitar determinados comportamentos e um conjunto de regras e valores para viver em sociedade.

Não há dúvida de que a socialização é realmente necessária. Tenho pensado que cada comportamento, jeito de ser, depende do equilíbrio entre imitação e invenção.

Há pessoas que imitam demais e perdem a sua singularidade, originalidade. Pessoas que se perdem em modelos admirados, e que, irrefletidamente, reproduzem comportamentos doentios, a guerra religiosa, por exemplo.

Por outro lado, há pessoas tão originais, em latim, sui generis, que até mesmo nos incomodam na convivência. Pessoas originais demais imitam pouco o comportamento alheio. Isso provoca admiração, mas também um certo incômodo em todos. Pense nos artistas: pessoas extremamente criativas.

A imitação é necessária para a socialização. Mas a invenção é sempre saudável, e é o que torna o mundo dinâmico. Diante da dúvida, escolho o equilíbrio.