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quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Cinco Sentidos e o nosso Conhecimento do Mundo

Por Anderson Araújo
Nas aulas sobre ilusão e engano tenho problematizado sobre os cinco sentidos. O que está em jogo é mostrar que nós falhamos e nos enganamos facilmente. Em outras palavras, é necessário colocar em dúvida o nosso conhecimento, sobretudo o que nos vem pelos sentidos, quando pensamos sobre o que pode ser a verdade em Filosofia.

Os nossos sentidos (olfato, paladar, visão, audição e tato) são meios através dos quais nos relacionamos com o mundo e conhecemos o mundo; são pontes que nos dão acesso às coisas. Mas este acesso nem sempre é confiável. Confundimos odores, sabores, imagens, sons e superfícies. Nenhum dos nossos cinco sentidos é perfeito. E com a idade, alguns deles falham ainda mais.

Surpreendemo-nos quando conhecemos alguém de audição mais sensível, por exemplo. Sempre cito meu amigo Ricardo que sem poder enxergar "com os olhos" desde os 7 anos de idade, esperava seu ônibus num ponto onde passavam três linhas diferentes. O Ricardo sabia qual era seu ônibus pelo barulho do motor. Às vezes, engana-se mais quem pode usar os cinco sentidos porque os utiliza mal.

No cotidiano, vivenciamos pouco a experiência de sentir e conhecer o mundo com os cinco sentidos plenamente. Assistimos TV enquanto acessamos nossos e-mails e durante as refeições. (As duas ou as três coisas juntas). Saboreamos pouco os alimentos. Ouvimos mal as pessoas.

Dizem que o sentido mais histórico é o olfato. E acredito nisso. Há perfumes que nos levam a vários lugares da nossa vida; ao cheiro de uma árvore da escola primária, por exemplo. O fato é que todos os sentidos nos enganam e têm sua marca de longa duração mas também de evanescência. A visão parece ser o sentido que mais nos engana e dispersa, nos dá foco, mas também nos faz perdê-lo facilmente.

O tato poderia aprender essa habilidade da visão: a de soltar as coisas facilmente. Nós nos apegamos às coisas muito fácil e até a pessoas. Nossas mãos prendem as coisas, dinheiro, posses, e tudo vai ficando mais pesado e mais suspeito. Falta ao tato o desprendimento que possui a nossa visão. Seríamos mais leves se nossas mãos se desprendessem das coisas como os nossos olhos, não sofreríamos tanto por apego.

Mas a atitude de suspeita é positiva em nossa investigação do conhecimento. Suspeitar do modo com o qual conhecemos o mundo e dele recebemos conhecimento nos ajuda a nos enganarmos menos, a nos iludirmos menos. E diante da imperfeição dos cinco sentidos, precisamos depurar, tornar mais sensível cada um dos nossos sentidos. Um exemplo simples, mas que dá medo em muita gente: comer em silêncio, sozinho, mastigando os alimentos devagar. Outra experiência realmente excêntrica: tomar banho no escuro, assistir TV sem som. São experiências que nos ajudam a pensar sobre o modo com que conhecemos o mundo e a explorar melhor os nossos sentidos.

terça-feira, 30 de março de 2010

O Mito da Caverna ou a Imagem da Caverna de Platão

Por Anderson Araújo

O Texto abaixo é uma paráfrase que fiz do texto original.

Sócrates pede ao seu interlocutor para comparar a sua natureza, educada ou não, com a situação que ele vai narrar. Nesta situação, há homens presos numa caverna, a qual tem somente uma abertura voltada para a luz. Os homens que ali estão, encontram-se amarrados desde crianças, pelas pernas e pelo pescoço. Assim, eles não podem mover-se, porque estão amarrados de tal modo que só podem olhar para frente.

Atrás deles e longe dali, brilha a luz de um fogo. Sócrates pede também para imaginar que, entre o fogo e os prisioneiros, existe um caminho, e, ao longo deste caminho, um muro.

Sócrates pede para imaginar que, ao longo do muro, há homens carregando objetos diversos que ultrapassam a altura do muro, são estátuas e outras figuras de madeira e de pedra que representam animais. Além disso, entre esses homens há aqueles que vão conversando pelo caminho, e aqueles que caminham em silêncio.

O interlocutor de Sócrates afirma que são imagens e prisioneiros muito estranhos. Sócrates explica que os prisioneiros são parecidos conosco. Sócrates pergunta ao seu interlocutor se esses prisioneiros poderiam ver de si mesmos e dos outros companheiros, outras coisas além das suas sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna em frente a eles. O interlocutor responde que não, porque foram obrigados a ficar com a cabeça imóvel durante toda a vida.

Sócrates pergunta se o mesmo não se daria com relação aos objetos transportados. O interlocutor afirma que sim. E perguntado se os prisioneiros, ao conversarem sobre o que vêem, apontariam como sendo a realidade, o interlocutor responde afirmativamente.

No caso de os prisioneiros ouvirem um eco do fundo da caverna, eles afirmariam que o eco provém das sombras projetadas na parede. Para os prisioneiros, a verdade coincidiria com a sombra dos objetos. O interlocutor diz que para eles não poderia haver outra verdade além daquelas sombras.

Se os prisioneiros fossem libertados e curados de suas ignorâncias e, um deles fosse solto, e obrigado a levantar-se, a mover o pescoço, a caminhar e a dirigir o seu olhar para a luz, sentiria dor, e, pelo clarão se tornaria incapaz de reconhecer as coisas, das quais via antes as sombras.

E se dissessem ao ex-prisioneiro que o que ele via antes não passava de sombras, e que agora ele vê perfeitamente, porque está voltado para as coisas que têm mais ser. E, se lhe mostrassem cada um dos objetos, lhe perguntando que coisa é, o que ele responderia. O interlocutor responde que o ex-prisioneiro teria dúvidas e pensaria que o que ele via antes era mais verdadeiro do que o que ele vê depois de libertado. E se o prisioneiro fosse forçado a olhar para a luz, ele sentiria dor nos olhos e fugiria voltando-se para as coisas que antes ele via e as tomaria por mais claras do que as coisas que lhe mostraram.

No caso de o prisioneiro ser levado à força para fora da caverna e o obrigassem a ver a luz do sol, ele sofreria e ficaria irritado por ser obrigado a tal. Ele ficaria com os olhos plenos de luz, ofuscados, e não seria capaz de ver nenhuma das coisas que lhe fossem indicadas como verdadeiras. O interlocutor diz que no começo seria difícil para o ex-prisioneiro.

Sócrates diz que ele deveria se habituar para conseguir ver as coisas do alto. E que, primeiro, ele veria mais facilmente as sombras, depois as imagens dos homens e das outras coisas refletidas na água, e, por último, a coisa mesma. Depois disso, poderia ver mais facilmente o que está no céu e o céu mesmo à noite, do que de dia o sol e a luz do sol. E, por fim, poderia ver o sol e não mais as suas imagens na água ou em outro lugar, mas no lugar mesmo, e vê-lo como ele o é.

Disso então, diz Sócrates, ele chegaria à conclusão de que o sol que produz as estações e os anos e que governa todas as coisas que são visíveis e que, de certo modo, é a causa também de tudo o que ele e os seus companheiros viam antes.

O prisioneiro, ao recordar da sabedoria que ele e seus companheiros acreditavam possuí-la na prisão, ficaria feliz pela mudança e sentiria tristeza pelos seus companheiros que continuaram presos.

Entre os prisioneiros tinham prêmios para aquele que, tendo os olhos mais nítidos na observação das imagens que passavam, se lembrasse com exatidão daquelas que apareciam primeiro, ou por ultimo, ou junto, e que era capaz de prever a imagem que apareceria. Sócrates pergunta ao seu interlocutor se o ex-prisioneiro sentiria saudade disso, ou teria inveja dos que se destacavam entre eles. Ou com ele se passaria o que está em Homero: preferiria viver trabalhando na terra, a serviço de um homem sem riquezas e vir a sofrer o que for, a voltar para aquelas ilusões e viver daquele modo.

O interlocutor diz que o prisioneiro agüentaria tudo para não viver do outro modo. E se ele descesse na caverna e voltasse para o seu lugar ficaria com os olhos obscurecidos por vir da luz do sol tão rapidamente.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

PLATÃO. A República. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2000. p.319-322.