Anderson Manuel de Araújo
Pensar a Filosofia no cotidiano. “A filosofia é luta contra o enfeitiçamento de nosso entendimento pelos meios da nossa linguagem”. (Wittgenstein. Investigações Filosóficas, 109)
sábado, 25 de abril de 2020
Nem toda casa é um lar
Anderson Manuel de Araújo
sexta-feira, 23 de julho de 2010
O Problema da Justiça
Por Anderson Araújo
O diálogo sobre a justiça acontece entre Céfalo (um ancião), Polemarco (seu filho) e um dos filósofos mais importantes para o desenvolvimento da filosofia: Sócrates. No decorrer do diálogo chegam outros personagens, mas refletiremos apenas sobre o trecho inicial do livro I de A República de Platão.
Sócrates é convidado para ir à casa de Céfalo. Todos gostavam muito de conversar com o filósofo. Pois, ele utilizava um método interessante para ensinar. O método é a Dialética. O que é isso, dialética? Examinemos o diálogo para compreendermos esse termo e o problema da justiça.
Céfalo afirma que a Justiça consiste em falar a verdade e devolver ao outro o que lhe pertence. Sócrates aponta um problema na definição de Céfalo sobre a justiça. Qual é o problema? Sócrates exemplifica: Imaginemos que José receba uma arma do seu amigo (Luiz) para guardar. Certo dia, Luiz bate à porta da casa de José e lhe pede a arma que anteriormente pedira que guardasse. No entanto, José percebe que Luiz está um pouco alterado, provavelmente, com perturbações mentais, pensou José. O Luiz deve ter batido a cabeça em algum lugar ou deve ter tomado alguma bebida muito forte. (Estes nomes, Luiz e José não fazem parte do texto original). Sócrates se utiliza desse exemplo a fim de mostrar para o seu interlocutor, Céfalo, que, se a Justiça consistir em falar sempre a verdade e dar a cada um o que lhe pertence, seria então justo que o José entregasse a arma ao Luiz nessas condições. Mas ninguém concordaria em dar a arma para uma pessoa perturbada.
Céfalo diz que de fato errou em sua definição de Justiça. Pois, a Justiça consiste em falar a verdade e devolver a cada um o que lhe pertence, mas de acordo com as circunstâncias, ou seja, só se pode falar a verdade e entregar a alguém o que lhe pertence se este não estiver perturbado das ideias. Céfalo sai de cena e deixa o seu filho Polemarco conversando com Sócrates. É certo que não desejamos o mal aos nossos amigos, mas, e no caso de nossos inimigos, pergunta Sócrates a Polemarco, teremos que lhes devolver o que lhes devemos?
Polemarco responde que sim. Porque uma pessoa só deve ao seu inimigo o mal. Sócrates percebe também um problema na fala de Polemarco e lhe pergunta: “O que deve fazer um médico?” Polemarco responde: “dar remédios para os doentes”. Sócrates pergunta a Polemarco: “A Justiça consiste em fazer bem aos amigos e mal aos inimigos?” Polemarco responde que sim.
Sócrates lembra que a medicina não foi criada para fazer o mal ao doente, pelo contrário, o médico só deve fazer o bem. Com isso, Sócrates está empregando o seu método que é a Dialética. É uma espécie de jogo que acontece na maioria dos diálogos Socráticos. Neste diálogo, sobre a Justiça, Sócrates percebe que Céfalo e Polemarco dão falsas definições de Justiça. Pois, tanto Céfalo quanto Polemarco não apresentam uma definição universal de Justiça. Eles apresentam definições particulares. As definições que interessam ao filósofo são as definições universais, quer dizer, aquelas que podem ser usadas em todas as situações. Neste caso, a definição de Justiça, assim como a definição de medicina exige uma aplicação imparcial, logo, o "homem mau" merece cuidados médicos e tem direito de ser assistido pela Justiça.
Para Sócrates, a definição de Justiça deve servir para todos os casos. As definições não podem se contradizer. Sócrates nos ensina com a filosofia que não podemos dizer que algo é bom e mau ao mesmo tempo. A definição de Justiça deve ser útil e boa para todos os casos. A Dialética, este método que a filosofia sempre usou, nos ensina a usar os conceitos de uma forma clara e precisa, para que todos compreendam e não sejam enganados por argumentos falsos.
Sócrates, ao empregar a Dialética, dizia que fazia um trabalho de parteira. Pois, para ele, todas as pessoas estão “grávidas”, grávidas de ideias. E para fazê-las nascerem é necessário o trabalho de um filósofo. Esse método dialético é chamado de maiêutica, que é fazer o outro descobrir por si mesmo a verdade que parecia desconhecer. É a arte de fazer o outro “dar à luz às suas idéias”.
Referência Bibliográfica
PLATÃO. A República. Livro I. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2000.
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Filosofar para alargar os nossos horizontes
terça-feira, 30 de março de 2010
O Mito da Caverna ou a Imagem da Caverna de Platão
Por Anderson Araújo
O Texto abaixo é uma paráfrase que fiz do texto original.
Sócrates pede ao seu interlocutor para comparar a sua natureza, educada ou não, com a situação que ele vai narrar. Nesta situação, há homens presos numa caverna, a qual tem somente uma abertura voltada para a luz. Os homens que ali estão, encontram-se amarrados desde crianças, pelas pernas e pelo pescoço. Assim, eles não podem mover-se, porque estão amarrados de tal modo que só podem olhar para frente.
Atrás deles e longe dali, brilha a luz de um fogo. Sócrates pede também para imaginar que, entre o fogo e os prisioneiros, existe um caminho, e, ao longo deste caminho, um muro.
Sócrates pede para imaginar que, ao longo do muro, há homens carregando objetos diversos que ultrapassam a altura do muro, são estátuas e outras figuras de madeira e de pedra que representam animais. Além disso, entre esses homens há aqueles que vão conversando pelo caminho, e aqueles que caminham em silêncio.
O interlocutor de Sócrates afirma que são imagens e prisioneiros muito estranhos. Sócrates explica que os prisioneiros são parecidos conosco. Sócrates pergunta ao seu interlocutor se esses prisioneiros poderiam ver de si mesmos e dos outros companheiros, outras coisas além das suas sombras projetadas pelo fogo na parede da caverna em frente a eles. O interlocutor responde que não, porque foram obrigados a ficar com a cabeça imóvel durante toda a vida.
Sócrates pergunta se o mesmo não se daria com relação aos objetos transportados. O interlocutor afirma que sim. E perguntado se os prisioneiros, ao conversarem sobre o que vêem, apontariam como sendo a realidade, o interlocutor responde afirmativamente.
No caso de os prisioneiros ouvirem um eco do fundo da caverna, eles afirmariam que o eco provém das sombras projetadas na parede. Para os prisioneiros, a verdade coincidiria com a sombra dos objetos. O interlocutor diz que para eles não poderia haver outra verdade além daquelas sombras.
Se os prisioneiros fossem libertados e curados de suas ignorâncias e, um deles fosse solto, e obrigado a levantar-se, a mover o pescoço, a caminhar e a dirigir o seu olhar para a luz, sentiria dor, e, pelo clarão se tornaria incapaz de reconhecer as coisas, das quais via antes as sombras.
E se dissessem ao ex-prisioneiro que o que ele via antes não passava de sombras, e que agora ele vê perfeitamente, porque está voltado para as coisas que têm mais ser. E, se lhe mostrassem cada um dos objetos, lhe perguntando que coisa é, o que ele responderia. O interlocutor responde que o ex-prisioneiro teria dúvidas e pensaria que o que ele via antes era mais verdadeiro do que o que ele vê depois de libertado. E se o prisioneiro fosse forçado a olhar para a luz, ele sentiria dor nos olhos e fugiria voltando-se para as coisas que antes ele via e as tomaria por mais claras do que as coisas que lhe mostraram.
No caso de o prisioneiro ser levado à força para fora da caverna e o obrigassem a ver a luz do sol, ele sofreria e ficaria irritado por ser obrigado a tal. Ele ficaria com os olhos plenos de luz, ofuscados, e não seria capaz de ver nenhuma das coisas que lhe fossem indicadas como verdadeiras. O interlocutor diz que no começo seria difícil para o ex-prisioneiro.
Sócrates diz que ele deveria se habituar para conseguir ver as coisas do alto. E que, primeiro, ele veria mais facilmente as sombras, depois as imagens dos homens e das outras coisas refletidas na água, e, por último, a coisa mesma. Depois disso, poderia ver mais facilmente o que está no céu e o céu mesmo à noite, do que de dia o sol e a luz do sol. E, por fim, poderia ver o sol e não mais as suas imagens na água ou em outro lugar, mas no lugar mesmo, e vê-lo como ele o é.
Disso então, diz Sócrates, ele chegaria à conclusão de que o sol que produz as estações e os anos e que governa todas as coisas que são visíveis e que, de certo modo, é a causa também de tudo o que ele e os seus companheiros viam antes.
O prisioneiro, ao recordar da sabedoria que ele e seus companheiros acreditavam possuí-la na prisão, ficaria feliz pela mudança e sentiria tristeza pelos seus companheiros que continuaram presos.
Entre os prisioneiros tinham prêmios para aquele que, tendo os olhos mais nítidos na observação das imagens que passavam, se lembrasse com exatidão daquelas que apareciam primeiro, ou por ultimo, ou junto, e que era capaz de prever a imagem que apareceria. Sócrates pergunta ao seu interlocutor se o ex-prisioneiro sentiria saudade disso, ou teria inveja dos que se destacavam entre eles. Ou com ele se passaria o que está em Homero: preferiria viver trabalhando na terra, a serviço de um homem sem riquezas e vir a sofrer o que for, a voltar para aquelas ilusões e viver daquele modo.
O interlocutor diz que o prisioneiro agüentaria tudo para não viver do outro modo. E se ele descesse na caverna e voltasse para o seu lugar ficaria com os olhos obscurecidos por vir da luz do sol tão rapidamente.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
PLATÃO. A República. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2000. p.319-322.