Mostrando postagens com marcador ideologia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ideologia. Mostrar todas as postagens

sábado, 4 de outubro de 2014

Eleições no Brasil: Terror e covardia ou Liberdade e coragem?

"Esclarecimento é a saída do homem de sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso de seu entendimento sem a direção de outro indivíduo".
(Immanuel Kant)

Por Anderson Araújo
Muitos alunos e amigos me pediram para escrever um texto para manifestar o meu voto e fazer uma análise dos candidatos à presidência do Brasil. Alguns já sabem o nome que tem o meu apoio. E muitos sabem, principalmente, quem não tem o meu apoio.

Penso que muito mais importante do que defender uma argumentação, explicitando os feitos e fatos que me levaram a fazer a minha escolha, será provocar o meu leitor e a minha leitora a pensarem por conta própria, uma vez que esta seria a função de um filósofo ou pensador. 

O filósofo Immanuel Kant pode nos auxiliar neste texto. Para Kant, muitos se encontram no que ele chamou de "estado de menoridade". Estar nesta "situação" ou "estado" não é ter menos de 18 anos, mas se comportar como alguém que não tem condições de pensar por conta própria, que não tem capacidade de fazer o uso da razão. Logo, você se encontra neste "estado" de menoridade se você como eleitor não é capaz de fazer uso da sua própria razão para fazer suas escolhas. É cômodo deixar que as revistas, os jornais, a TV e as pesquisas de opinião pensem por você e conduzam o seu voto. Por isso, segundo Kant, quem está nesta "situação" não passa de um covarde ou preguiçoso.

De um lado, penso que há uma grande parcela de covardes por preguiça mesmo. E de outro, aqueles que não têm outra opção, não têm como ler outra revista, não têm acesso a outro tipo de informação ou a outro canal em sua TV; por isso este grupo que está fadado a ter um único ponto de vista acerca de tudo, pois não tem oportunidades ou opções, acaba se tornando vítima e não teria condições de se libertar da menoridade que se encontra, diferentemente daquela parcela preguiçosa, que não é vítima, mas covarde.

Quero, pois, pensar a respeito do que motiva a uma parcela de pessoas a disseminar, a divulgar o terror que vivemos na véspera das eleições e o que leva outras pessoas a acreditarem no terror.

Primeiramente, precisamos nos conscientizar de que o ser humano, sobretudo quando não tem como recorrer à ciência e à razão para resolver os seus problemas, acaba buscando explicações mitológicas e religiosas sobre o mundo. Neste aspecto, algumas pessoas que não têm competência e capacidade para conquistar o voto dos eleitores, começam a disseminar o terror, e junto com ele, as teorias conspiratórias. E aqui aparecem as pessoas que se encontram na situação de menoridade: apenas acreditam; não refletem, não pesquisam, não investigam. E pior: divulgam, compartilham o terror! Você já notou que quando o seu time perde um campeonato ou apenas um jogo, você tende a culpar a arbitragem, ou mesmo começa a acreditar que os jogadores venderam o resultado? 

Nós precisamos justificar a derrota, principalmente se ela tiver gerado em nós uma frustração. 

E numa eleição, quando está em jogo os meus interesses, o meu salário, o imposto de renda, o cargo que ocupo? Como as pessoas podem pensar diferente de mim? Como a maioria pode escolher X e não escolhe Y? Ah, aí surgem as teorias conspiratórias. Quando o seu candidato vence, a urna é segura, confiável. Agora, "paira no ar" a ideia de que há manipulação dos resultados das urnas. Quando o seu time vence, ele é o melhor, o jogo foi justo. Mas quando ele perde... Como justificar o fracasso e as opiniões contrárias às suas?

Você vai disseminar o terror por ser covarde ou por defender interesses próprios?

Notam-se também nestas eleições posições fundamentalistas. Muitos que criticam o fundamentalismo religioso que mata milhares de pessoas no mundo, acabam assumindo posições fundamentalistas na eleição. A pessoa que tem posição fundamentalista vê como o diabo todo aquele que se posiciona diferentemente dela, e não admite que o processo seja justo por tantas pessoas pensarem diferente dela.

Tenha a coragem de fazer o uso da sua razão e de se libertar da menoridade, para enfim, alcançar a maioridade. Ter coragem neste caso, é a capacidade de perceber o que manipula você, o que o seduz e o que "mascara" as verdadeiras intenções daqueles que desejam o seu voto. Faça a sua escolha, mesmo com riscos, mas assuma os riscos de ter pensado por conta própria. Porém, não se esqueça de que a sua escolha deveria ser feita pensando na REPÚBLICA, na "coisa pública", porque um presidente não governa apenas para um grupo ou para uma pessoa, mas para todos os cidadãos. Portanto, seria justo votar pensando em seu próprio benefício e deixar de pensar no benefício da sua nação, do seu país? Talvez você esteja num grupo que não possa ser favorecido diretamente caso determinado(a) candidato(a) vença. Você teria coragem de votar nele(a) pensando no bem-estar e na felicidade da nação?

Sendo assim, se quiser, divulgue o seu voto, o seu apoio a uma pessoa, mas racionalmente, equilibradamente, sem recorrer a teorias conspiratórias, sem disseminar o terror e o ódio. Apresente as propostas dele (a), dizendo por que é importante para o nosso país que ele (a) seja eleito (a). Não se precipite, reforçando a situação de menoridade que muitas pessoas se encontram. Tenha a coragem de buscar o esclarecimento e contribua para o esclarecimento dos outros, pois somente assim teremos uma nação melhor para todos e não apenas para alguns.

Se você pensa que o candidato que faz ataques pessoais ao invés de fazer propostas é o melhor candidato, você é livre para ser governado por alguém que você não sabe o que pretende fazer por você. Os debates para presidente demonstraram claramente isso. Tantos temas importantes para serem pensados e debatidos, entretanto, muitos preferiram o espetáculo. Lamentavelmente, quem se encontra na menoridade prefere o espetáculo porque precisa apenas assistir, enquanto que pensar por conta própria com a finalidade de compreender exige esforço, empenho e estudo.

Não penso que quem pensa diferentemente de mim representa o mal ou é covarde e estaria no estado de menoridade. Sou contra qualquer tipo de fundamentalismo, contra a política como espetáculo e defendo a democracia, ainda que, democraticamente, sejam eleitos aqueles que não escolhi. Meu julgamento é a respeito dos critérios que levam você a fazer a sua escolha. Se os seus critérios foram determinados a partir de uma lucidez e de investigação pessoal, fico feliz que você tenha chegado a um determinado candidato mesmo sendo diferente da opção que eu fiz. Porém, se a sua escolha estiver fundamentada na beleza do (a) candidato (a), nas teorias conspiratórias que favorecem apenas aqueles que querem o poder a todo custo; lamento caro leitor, você pode votar, mas ainda se encontra na situação de menoridade.

sábado, 10 de julho de 2010

Alienação e Mediocridade

Por Anderson Araújo

Considerando-se que as ideologias são doutrinas de ideias; podem ser utilizadas com o sentido de educar, sensibilizar, formar, convencer e até mesmo de manipular o ser humano. Pode-se identificar cada sentido dependendo da pessoa que faz uso da ideologia e do contexto no qual é utilizada.

Desse modo, as músicas transmitem ideologias, intencionalmente ou não, mas transmitem. Assim como as propagandas, as religiões e os discursos políticos. As propagandas tentam convencer as pessoas a comprarem seus produtos. Para isso, associam imagens de beleza, saúde e bem-estar ao produto que desejam vender. Um político sempre transmite uma ideologia. Mas o que precisamos identificar é se ele a transmite em um sentido positivo ou negativo. Ou seja, se o objetivo é auxiliar as pessoas, libertar as pessoas das condições miseráveis e sub-humanas nas quais vivem, a ideologia é positiva. E se o objetivo for simplesmente ganhar votos, apoio e auto beneficiar-se, estamos diante de uma ideologia no sentido negativo.

Em geral, o que a ideologia em seu sentido negativo faz é alienar as pessoas. As pessoas tornam-se alienadas, quer dizer, desconhecem os reais motivos pelos quais agem, consomem compulsivamente e escolhem determinados políticos. Neste caso, ainda há muitas pessoas que escolhem um representante porque corresponde a um padrão de beleza ou porque está ligado a um time de futebol, por exemplo. Claro que nada impede que um jogador de futebol tenha características consideradas importantes para um representante do povo. Mas, normalmente, as pessoas desconhecem seus projetos.

Pessoas alienadas geralmente são medíocres. Por quê? Porque agem iguais a todo mundo. Compram as mesmas roupas de marcas famosas, não suportam não TER o celular que o seu grupo de convivência possui, nem o fato de andar com um carro usado. Alienação e mediocridade andam de mãos dadas. Isso porque falta opinião própria, estudo, estilo e perfil à pessoa alienada. Formar-se é algo difícil, porque exige esforço, cultivo de si (cultura), assim como toda virtude. A virtude não é apenas um bom hábito, mas é um comportamento marcado pela originalidade e motivações próprias para conhecer-se e conhecer o mundo e as coisas; talvez para se enganar menos e ser menos enganado, menos alienado portanto, e mais autêntico.

É triste e cansativo ver e ouvir as pessoas repetirem chavões de programas de humor ou de novelas – fica todo mundo igual. Mas é encantador ser surpreendido por questões diferentes e problematizadoras sobre o mundo. A autenticidade exige também moderação, equilíbrio, mas não a “média”, ou seja, não é ser “mais ou menos”. Posicionar-se contra a mediocridade e possuir um perfil original é desafiador. Porque para isso deve-se ser diferente, mas também respeitar as diferenças; e conviver harmonicamente com a sociedade, mas sem perder-se, sem ser comum.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

O Tio Zé e a Filosofia

Por Anderson Araújo

Há alguns dias conheci o tio Zé, lá de Goiás, irmão da vovó Edite. Homem matuto e de muita sensibilidade, acostumado à vida no campo, gente que lê os sinais da natureza melhor do que meteorologista. Eu sempre soube da fama do tio Zé de "contador de causos".

Naquela manhã de sábado estava disposto a ouvir suas histórias e causos. Primeiro, ele contou que lá em Goiás, na sua fazenda, dá tanto peixe que se pega com as mãos na "beirada" da lagoa. E dentre outros causos, ele também contou que os celulares fazem parte mesmo da vida dos habitantes na sua cidade em Goiás. Certa vez, encontrou um cachorrinho mancando, quando foi ver, o cachorrinho estava falando com a namorada no celular. Bom, é verdade que a história da lagoa dá para acreditar, mas a do cachorrinho...

Depois de muita risada, questionamos o tio Zé, com todo respeito, de onde vinha a capacidade de contar mentiras. Então ele disse: "A verdade é pouca. Se a gente não inventar, a gente fica sem assunto. A conversa acaba e não tem como passar o dia. Vai ficar contando só verdade? O assunto acaba".

Para mim, o tio Zé tinha acabado de contar uma verdade filosófica. Em outras palavras, ele tinha acabado de sintetizar livros e tratados de filosofia numa única frase: "A verdade é pouca". "A gente precisa inventar". Pois, a filosofia se não for a busca pela verdade, é um esforço para mostrar que muitas teorias ou conceitos tidos como verdades, não são verdadeiros, são inventados. Muitas verdades não passam de crenças, invenções. Ou seja, habituamo-nos a teorias que nos são transmitidas e ensinadas, seja pela tradição ou pelos meios de comunicação, sem questionarmos a verdade. Disso decorrem várias críticas, como a de Karl Marx às ideologias.

Se podemos encontrar a verdade é outra história, investigada em bons e longos tratados. Mas ter consciência da "invenção da verdade" já é um importante passo e uma nobre postura filosófica. A teoria do tio Zé não só me lembrou a minha dissertação de mestrado, mas também me ajudou a encarar o problema da verdade com mais leveza.