quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

A Humanidade na Renúncia do Papa

Por Anderson Araújo
A renúncia do Papa Bento XVI pegou não apenas o "povo" de surpresa, mas também a Igreja Católica no mundo inteiro. A infalibilidade papal pode significar outras coisas no âmbito político e religioso, mas para mim tem mais a ver com humanidade. Independentemente dos motivos que levaram Bento XVI a renunciar, e independentemente de você ser católico ou não, e de o Papa significar alguma coisa pra você, certamente este "evento" tem muito a nos dizer. 

Como líder religioso, influencia, embora com menos intensidade do que no passado, mesmo países e povos que não são considerados católicos. O Papa, sobretudo a partir de João Paulo II, passou a ser um "mediador" não somente entre os homens e Deus, mas principalmente um mediador de conflitos entre os homens, função que João Paulo II tentou desempenhar em alguns momentos. 

De um lado esta renúncia provoca nas pessoas, mesmo naquelas que não são católicas, uma sensação de desamparo, desolação! "Um líder renunciar?" Ou, em outras palavras, "desistir"? As pessoas não se cansam de procurar em seus líderes religiosos, consolo, setas, ou caminhos que levem-nas a encontrar a paz, o consolo e até mesmo a salvação da alma. 

De outro lado, a declaração de Bento XVI me soa bastante humana, demasiada humana. É como se ele dissesse: "sou homem, humano, falível, ao contrário do que boa parte das pessoas pensam". "Tenho medo, também fico doente". "Envelheço". "Sinto-me fraco também na velhice". E talvez Bento XVI pretenderia dizer também que: "me sinto só", "me sinto algumas vezes desolado, sem Deus". 

Sua renúncia, Bento XVI, poderia significar não apenas discordância entre o senhor e os membros da Igreja, o que seria apenas uma discordância política, teológica e ideológica. Poderia significar também: "Cansei, não dou conta mais, é muita violência, é muita desumanidade, é muito egoísmo no mundo, não dou conta mais de 'representar' aquele que daria conta de carregar tudo isso". 

Para mim, volto a dizer, independente das causas que motivaram esta decisão, a voz de Bento XVI significa a voz dos excluídos, dos miseráveis, daqueles que sofrem, que imploram por ajuda, e mesmo das pessoas que têm tudo, bens materiais, emprego, sucesso, carreira, mas não têm amor, não se sentem amadas, enfim, que diversas vezes têm vontade de dizer: "não dou conta mais". "Cansei". "Sou humano". 

Muitos líderes, religiosos, chefes, pais de família e muita gente que ocupa posições de destaque, ou cargos de responsabilidade e de "poder" já tiveram e terão vontade de renunciar. Ter esta vontade ou realizá-la me soa muito humano. Talvez um dos muitos ensinamentos que este evento a princípio nos traz é este: somos falíveis, somos humanos, amamos, sonhamos, conquistamos, trabalhamos, lutamos, e queremos o melhor para o mundo e para nós, mas também cansamos, sofremos, e "desistimos". E isso não prova que você não esteja preparado para liderar, mas que você entende de gente, entende de humanidade.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Mineirão, Futebol e Educação

Por Anderson Araújo
O Oswaldo Montenegro disse em uma palestra que brasileiro entende de futebol porque acompanha futebol. Se acompanhasse a política e a economia também entenderia de política e economia. Complemento: analfabetos, pessoas com pouca escolaridade, graduados, doutores etc, todos não apenas acompanham futebol, mas são apaixonados por futebol. É verdade que esta paixão possui gradações: alguns se apaixonam, matam e morrem pela paixão, outros apenas são fiéis, cúmplices da sua paixão, e este último 'tipo' de paixão já seria bastante interessante e saudável.

Há algum tempo me sinto incomodado com os anúncios dos projetos para a Copa do Mundo de 2014 no Brasil. Há algum tempo me sinto apaixonado pelo futebol. Há algum tempo me sinto também frustrado com o futebol. Temos "o Brasil em obras" voltado para um evento mundial que é a Copa. Tais obras certamente serão benéficas para a população brasileira: expansão de metrôs, rodovias, criação e reforma de estádios etc.

Mas me preocupo muito e me envergonho quando vejo empresas privadas lucrando escandalosamente com um espetáculo mundial que ocorrerá no Brasil. Rodovias e estádios de futebol é muito pouco para um povo tão carente e sofrido como o povo brasileiro. Cada lar de família brasileira já deve ter visto um parente ou amigo morrer por falta de atendimento ou tratamento médico. Muitos brasileiros sofrem com passagens caras e viagens longas no transporte público. E a educação? Parece que falar em educação no Brasil é um mantra que anestesia ainda mais o povo brasileiro e que se tornou piada nos ouvidos dos nossos parlamentares.

Já escrevi em outros textos que futebol liberta, educa, restaura muita gente. Muita criança só vai à escola por causa do futebol. Muita criança só estuda porque precisa ter boas notas para continuar na "escolinha" de futebol. 

Em Minas Gerais há três grandes Clubes de futebol: AméricaAtlético e Cruzeiro. Grande rivalidade, sobretudo entre atleticanos e cruzeirenses, cada torcida tem o seu jeito peculiar de torcer e falar do seu time. Apesar de possuírem as maiores torcidas e mais títulos que o América, nem o galo e nem a raposa possui um estádio. O Galo joga na "Arena" Independência, e o Cruzeiro vai jogar no Mineirão, ambos por tempo determinado, determinado por empresas privadas! É verdade que a Arena Independência pertence ao América, mas é administrado por uma empresa privada. 

Há alguns dias a imprensa mineira vem debatendo um problema: - Se os clássicos no Mineirão serão de torcida única ou de torcida dupla.  O problema não é simples. Não é apenas uma questão de contrato ou de segurança. Hoje eu ouvi o presidente do Clube Atlético Mineiro, Alexandre Kalil, em entrevista ao repórter Bruno Azevedo, na rádio Itatiaia falar a respeito desse assunto. Idiossincraticamente, o presidente Kalil confirmou o que me incomoda: "O mineirão não é dos mineiros. O Atlético e o Cruzeiro são dos mineiros. O mineirão é de uma empresa privada que quer liquidar o futebol mineiro"

O Alexandre Kalil disse em tom de desabafo sobretudo para mostrar que não é simplesmente uma questão de "quem manda aqui é o Atlético ou é o Cruzeiro", mas sim uma questão política que envolve muito dinheiro que não será nem dos Clubes Mineiros nem do governo de Minas Gerais, mas da empresa Minas Arena. Nesse sentido, Kalil disse: "O Mineirão é o orgulho de uma construtora, da Minas Arena, não é orgulho dos Mineiros... o Mineirão é de uma empresa privada, não é dos Mineiros".

Como torcedor quero expressar o que penso a respeito do problema torcida única ou dupla. Primeiramente sobre o Independência: É IMPOSSÍVEL um clássico Atlético X Cruzeiro de torcida única. Não há segurança no trajeto do centro da cidade até o estádio, além de a localização do estádio ser mais favorável para o embate entre torcidas rivais, principalmente porque o seu entorno é tomado por residências. O metrô que seria o meio mais fácil de acesso ao estádio não comportaria duas torcidas em dia de clássico, certamente haveria tragédia! Quanto ao Mineirão, tradicionalmente comportou duas torcidas em dias de clássico. Para isso demanda muito trabalho, esforço, planejamento e estratégia por parte da polícia, do governo e dos dirigentes dos Clubes para "garantir" a paz entre os torcedores.

Vou anestesiar os ouvidos de alguns e soltar uma piada nos ouvidos de outros. Mas penso que o problema não é a segurança, mas a EDUCAÇÃO. Muitos torcedores esquecem-se de que são humanos e de que os torcedores rivais também são humanos em dias de clássico. 

Uma amiga me disse que o Lula "deu" a comida para o povo brasileiro ao tirar milhares da miséria. E agora é a vez da Dilma de "dar" educação. Se não deram isso efetivamente, independentemente da nossa empatia por estas personalidades, com certeza deram passos significativos para o fim da miséria e o crescimento das Universidades. Estudar de "barriga vazia" não dá. O que você vai pensar com fome? Em política, respeito, cidadania? Não, você vai pensar apenas em pão, carne, bolo etc! O brasileiro está comendo mais e melhor. Houve um crescimento das vagas nas Universidades Federais. Mas não apenas a Dilma, todos os nossos políticos precisam se preocupar ainda mais com as escolas e com a educação em geral, da creche ao ensino superior. Mais livro para os alunos, mais escolas, mais formação para os professores, e um salário que não HUMILHE os educadores - e quando isso estiver em primeiro lugar - talvez será mais fácil falar em segurança nos dias de clássico, será mais fácil "ensinar" a consumir, ensinar a votar, ensinar a comer, enfim, ensinar a RESPEITAR! 

O Kalil me incomodou ainda mais. Falar que o MINEIRÃO não é dos MINEIROS é falar que o BRASIL não é dos BRASILEIROS. Que os dirigentes do futebol mineiro, nossos parlamentares e o governador de MG resgatem o que pertence aos mineiros! 


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Nós não estamos prontos

Por Anderson Araújo
É difícil definir exatamente o que estamos sentindo numa época que ocorrem mudanças tão rápidas! Não dá tempo para sentir o presente, nem a dor, nem a alegria. O mesmo telejornal que anuncia a morte de alguém, também anuncia em instantes, o nascimento e a vida. O mesmo programa que incentiva as pessoas a praticarem esportes, também incentiva o consumismo. Já notaram a quantidade de programas relacionados à culinária? Somos pressionados: a comer, a consumir, a correr, a economizar e, a amar. 

Notem que somos "pressionados", intimidados a seguir o "rebanho", ou se quiserem, a "massa". Celulares e carros descartáveis. Precisamos estudar, fazer concursos, bater recordes, superar metas e também amar. Uma sociedade que incentiva o consumo não nos ensina a amar, não nos ensina a sermos "inteiros". Nesta sociedade de revistas eletrônicas somos apenas marionetes, jogados aqui e ali para comprar!

Se nós, adultos, temos "pouco" tempo ou poucas condições de refletirmos sobre tudo o que está ocorrendo, como uma criança poderá, sozinha, pensar sobre as armadilhas da TV, da internet e das redes sociais? Muitos pais estão abandonando seus filhos em casa, "seguros", diante da TV e dos computadores. Não há pessoa alguma ao lado delas para dizer que a propaganda é enganosa, não há ninguém perto delas para dizer que você não vai ficar tão bonita quanto aquela atriz se você usar aquele produto. É o pai, a mãe, ou o "cuidador" que vai situar a criança na vida "como ela é". 

E a "vida como ela é" exige esforço, treino, dedicação, trabalho e transpiração caso você queira comprar coisas, emagrecer, ganhar massa, formar-se e ter uma profissão. A vida é dor e alegria, nascimento e morte. Não somos personagens de desenhos animados: nós nos machucamos quando caímos. Sentimos tristeza. Sofremos com a morte dos outros, sofremos com a dor dos outros ao nosso redor. A dor provoca tristeza, mas é um sentimento que nos aproxima de nós mesmos e daqueles que realmente são significativos em nossas vidas. É importante SENTIR. 

Quantos lutos não vividos, não sentidos... 

Nesta obrigação de sermos felizes a todo custo vamos distanciando-nos de nós mesmos, dos nossos amigos, dos nossos pais e dos nossos filhos. A felicidade que as revistas e os programas de TV mostram é uma felicidade "instantânea", "imediata". O que nos ensinam é que há apenas um modelo de felicidade. E, ao seguir este modelo, você deve consumir. Mas não existe apenas um meio de ser feliz ou um caminho para a felicidade. A sua felicidade deve ser construída, inventada por você. Não há receita, não há modelo. Assim, para uma pessoa a felicidade pode consistir em diversos projetos de vida. Enquanto para outra não é necessário um projeto de vida, mas apenas viver o presente. 

José pode ser feliz cuidando da terra, plantando, colhendo ou capinando um lote. Maria pode ser feliz cozinhando para uma família ou para seus filhos. João encontra a sua felicidade jogando bola com os seus amigos. Luiz se realiza cuidando da segurança da sua cidade. Caetano se sente feliz compondo e cantando. Neste sentido, a felicidade de algumas pessoas consiste em contribuir para a felicidade dos outros, ou não. O mais importante é perceber que cada pessoa é livre para encontrar o seu caminho, para encontrar a sua felicidade, seja na TV, no futebol, na empresa ou na escola. E que se é livre mesmo quando escolhemos trilhar os caminhos que os outros fizeram para nós. 

Por isso o maior desafio para todos é, antes de educar o outro, educar-se. Educar-se significa também estar preparado para perceber que não estamos "prontos". Estamos "em construção" constante. Não somos perfeitos. Somos suscetíveis e influenciáveis. Daí a necessidade de abrir a mente para outras perspectivas, para novas leituras, viagens e conhecimentos. Se estamos "em construção", estamos aprendendo a amar também. Sentimos raiva, dor, amor, alegria e tristeza. Decepcionamo-nos e decepcionamos os outros. Mas podemos nos tornar pessoas melhores. Conscientizar-se disso pode tornar a construção mais forte. Saber disso pode nos ajudar a perceber as pressões externas e a fugir delas. Conscientizar-se disso pode nos ensinar a amar. 

É neste processo de formação de si mesmo que o pai, a mãe e o educador vão se tornar "preparados" para educar. O carinho, o amor e a presença dos pais tornam-se mais importantes do que o presente. Tomar sorvete na praça é mais barato. Além disso, na praça você está mais presente do que no shopping. Assistir ao pôr-do-sol leva você para dentro de si mesmo. Ir ao shopping pode ser divertido mas leva você para fora de si mesmo. Consumir "doses" de felicidade custa caro, enquanto não é necessário pagar para amar.




segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Os Vilões e a Coragem

Por Anderson Araújo
(Para Daniel Campos)

Nossos sentimentos e nossas paixões tendem quase sempre ao excesso ou à deficiência (falta). Em relação à coragem não seria diferente. O filósofo Aristóteles classifica a coragem como virtude entre dois vícios. A deficiência ou falta de coragem denomina-se covardia. E o excesso de coragem pode ser classificado como temeridade. É covarde todo aquele que não consegue enfrentar o seu medo e deixa-se paralisar pelo sentimento de medo. O excesso de coragem também é ruim, pois aquele que age sem temer a nada, põe a sua vida em risco por motivo algum, torna-se temerário.

Desse modo, é necessário o medo na ação para que ela possa ser considerada corajosa, sobretudo na coragem heróica. O herói não é aquele que não tem medo ou que age sem medo. O herói é aquele que enfrenta o seu medo, coloca a sua vida em risco para o benefício do outro, para salvar o outro. 

Por isso poderíamos dizer que os super-heróis não são corajosos? Os seres humanos são corajosos. O super-herói em geral, dos quadrinhos e do cinema, não coloca a sua vida em risco. Ele teria uma atitude do herói: a  ação voltada para o benefício dos outros. Mas quando, por exemplo, o super-homem entra num prédio em chamas para salvar uma pessoa, ele sabe que não há risco nesta ação. Por outro lado, um homem, que pode ser um bombeiro, quando entra num prédio em chamas, coloca a sua vida em risco para salvar a vida dos outros. Logo, neste caso vemos uma ação corajosa.

Nos últimos dias aprendi com um aluno durante uma aula sobre o tema em questão, outra perspectiva, outra leitura da ação do super-herói, que até então não havia parado para pensar, nem havia percebido. Os vilões, os monstros etc, atuam com a função de fazer, de tornar o super-herói corajoso. Pois se o prédio em chamas não traz medo ao super-homem, um vilão mais forte ou com criptonita certamente faz com que o super-homem coloque a sua vida em risco para salvar uma pessoa. Os vilões fazem com que os super-heróis se superem, enfrentem grandes desafios.

Pode-se também classificar os super-heróis como virtuosos e principalmente, corajosos, mantendo as duas características: o agente deve colocar a sua vida em risco para salvar o outro. Aprendi a reconhecer a "função", o "papel" dos "vilões" não apenas na vida dos super-heróis, mas também na vida dos seres humanos, a fome, o desemprego, a doença, a corrupção principalmente no Brasil, são "vilões" e fazem com que nos tornemos ainda mais corajosos quando enfrentamos todos esses desafios. Neste sentido, podemos continuar a reflexão sobre o assunto citando Guimarães Rosa: "O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem"

domingo, 1 de julho de 2012

Vestibular UFMG 2013



Textos de FILOSOFIA indicados ao vestibular da UFMG 2013

Texto 1: Platão. Eutidemo. Tradução de Maura Iglésias. São Paulo: Loyola, 2011.

Texto 2: HUME, David. “Do Padrão do Gosto” In: Ensaios morais, políticos e literários (Coleção Os Pensadores). Tradução de João Paulo Gomes Monteiro e Armando Mora D’Oliveira. São Paulo: Abril Cultural, 1992, p. 261-271 (diversas edições).

Texto 3: RUSSELL, Bertrand. Os Problemas da Filosofia (Capítulo 12, intitulado “Verdade e Falsidade”). Tradução de Jaimir Conte. Florianópolis, 2005. Disponível online no endereço: http://www.cfh.ufsc.br/~conte/russell.html

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Provocações Filosóficas e os Direitos dos Animais


Por Anderson Araújo
(Para Thaís  Rodrigues  e Michelle Santos)

Naquela aula estudávamos um texto relacionado à "Ética e os direitos dos animais". Tínhamos que pensar primeiramente na posição de alguns filósofos da História da Filosofia sobre o tema em questão. Aristóteles, René Descartes, Kant e a filosofia utilitarista nos serviram de base para iniciarmos as discussões. 

As problematizações começaram a aparecer. Será que os animais não humanos têm alma? Consciência? Memória? Quais os critérios que nos permitem defender a vida dos animais, e mais precisamente o direito a continuarem vivendo? Quais são as principais diferenças entre os animais e os homens? Algumas dessas diferenças nos permitiriam estabelecer uma hierarquia entre nós, animais humanos e os outros animais não humanos?

Como podemos defender os nossos hábitos de matarmos os animais para nos alimentarmos deles? Em que sentido poderíamos justificar esta ação? Alguns teóricos defendem esta ação apenas com a finalidade de "matar" a fome humana em condições limites de sobrevivência, como por exemplo na ausência de qualquer alimento, no caso de uma sobrevivência na natureza selvagem. Nesta perspectiva, como somos capazes de plantar e colher, cultivar legumes e verduras, fazer bolo, queijo e biscoitos com leite de todos os tipos, não seria necessário matar um porco, um boi ou pato para nos alimentarmos deles.

Há também aqueles que defendem o consumo apenas da carne do animal que não sofre ao morrer. Neste caso, poderíamos pensar no modo como os animais são mortos, e ainda, se há algum animal que não sofre ao morrer, ou seja, que não sente dor aos ser morto por algo ou alguém. Não vou entrar aqui nas particularidades deste tema tão complexo e discutido sobretudo por vegetarianos e por alguns pensadores, por exemplo, o filósofo Peter Singer. 

Ser vegetariano ou não? Esta é UMA das PROVOCAÇÕES que tenho feito aos meus alunos nas aulas sobre este tema. A questão motivadora deste texto é a pergunta que uma aluna me fez relacionada a este assunto e à filosofia geral. Primeiro, o fato de eu não ser um vegetariano. Segundo, o fato de eu, um professor de filosofia levantar tantos problemas sobre a vida, uma vez que já temos tantos problemas. 

A pergunta desta minha nobre aluna me incomodou, assim como o tema vem causando incômodo aos meus alunos. Principalmente porque vivemos numa cultura que popularizou os churrascos e churrasquinhos.

Como educador, pensador e professor de filosofia, tenho a dizer que a minha função é de fazer provocações. Ainda que eu não seja um vegetariano, tenho que fazer algumas problematizações. Provocar os meus alunos, pois é isso que a filosofia faz com o estudante. Algumas vezes eu terei que assumir, inclusive, uma posição contrária à minha para defender o ponto de vista ou a teoria de um filósofo. Com a filosofia aprendemos a provocar e a fazer investigações a partir das provocações que recebemos dos pensadores. Sinto-me também incomodado com o fato de comer carne animal. Talvez esta problematização nos sirva para repensarmos os nossos hábitos. Para  pelo menos diminuirmos o nosso consumo de carne e comer mais frutas e grãos, tomar leite e seus derivados... E devemos, ainda que não sejamos vegetarianos, pensar no modo como enxergamos os animais não humanos. 

O tema exige um amplo estudo. Este texto, assim como a filosofia, quer antes de qualquer coisa, provocar, incomodar o leitor. A filosofia nos ensina que precisamos conhecer e analisar diversos pontos de vista para escolhermos um, ou alguns, ou ainda, não escolhermos nenhum deles. Depois de um amplo estudo sobre os direitos dos animais, cabe à cada pessoa pensar e, livremente, optar pelos seus hábitos alimentares. Independentemente disso, precisamos problematizar para tomarmos uma posição mais consciente diante das coisas e do mundo. Algumas pessoas são atropeladas pelos problemas porque nunca pararam para pensar neles.

Há pessoas que nunca pensaram no consumo de carne animal. Outras já pensaram, mas não veem o tema como problema. E algumas pensaram, estudaram e abandonaram o consumo de carne. E há pessoas que continuam pensando e se incomodando com o problema. Pensar no consumo de carne animal e nos direitos dos animais é necessário, sobretudo quando se fala em sustentabilidade, liberdade, caridade e justiça. Assim como é necessário pensarmos em vários problemas que nunca vimos como problemas, apesar dos problemas pessoais, sociais e planetários que já temos. Apesar de tudo, não apenas provoco, mas neste caso defendo explicitamente uma postura de protesto contra o abandono de animais e contra maus tratos. O abandono de animais é crime e deve ser penalizado. De repente, todos os problemas têm causas ou origens semelhantes, assim como também teriam soluções semelhantes. Mas isso também é apenas é uma provocação - não menos importante.

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Os homens e os animais: infidelidade no uso da liberdade

Por Anderson Araújo
Tenho um casal de cães de raça não definida, "vira-lata". Lassie e Kirchof completarão 15 anos em 2012. Encontrei a fêmea, ainda filhote e faminta, abandonada numa caixa de papelão na calçada. Hoje a Lassie dorme o dia inteiro, sai da casinha para comer e tomar banho de sol, não dá trabalho algum. Já o Kirchof, o encontrei também ainda filhote e na rua, fazia parte dos filhotes de uma cadela que pertencia a um morador de rua. 

O Kirchof está cego há dois anos, manca, tem artrite e artrose, por isso me dá mais trabalho. Mas como meu "amigo fiel" resolvi não abandoná-lo. 

O Natal, festa cristã, está próximo, uma época de comemorações e de férias. Muitas famílias viajam nesta época. E é nesta época que muitas pessoas abandonam os seus animais nas ruas ou os deixam famintos e também abandonados em casa. 

Além do abandono que é também uma forma de violência, assistimos a inúmeros casos de violência contra os animais, sobretudo nos últimos dias. Cães famintos que saltam de prédios porque foram abandonados, outros são arrastados por seus donos em carros como uma forma de punição. E ainda, uma mulher agride um cão até a morte!

Na filosofia defendemos a ideia da liberdade humana, esta fantástica e dramática possibilidade que o ser humano tem de poder fazer escolhas. Escolhas entre o bem e o mal, certo e errado etc. Independentemente da cultura e da moral de cada povo e de cada época que vai dizer se é certo ou errado, necessário ou contingente, pode-se dizer que os seres humanos têm mais condições de exercerem um domínio sobre os animais.

Os animais brigam entre si, manifestam "raiva" ou "poder" como forma de se protegerem dos outros animais e dos seres humanos. Os animais matam - mas por necessidade de sobrevivência e de proteção deles mesmos e da sua prole. Os seres humanos não só fazem o mal aos outros humanos, mas também aos animais, não por necessidade de sobrevivência e não apenas fazem o mal, mas abusam e torturam os outros. 

Os seres humanos que caçam, machucam e agridem os animais desejam apenas sentir o prazer em ver o outro sofrer, e/ou manifestam o seu poder no olhar submisso do animal. Muitos homens são ofendidos ou não são reconhecidos socialmente e se sentem fracassados, mas encontram na violência contra os animais um  modo de manifestarem o seu poder e de serem "obedecidos" e "reconhecidos".

Os animais, sobretudo domesticados, são submissos. O ser humano é livre e quando comete o mal comprova esta liberdade, mas comprova também que só se torna forte diante daqueles que são frágeis ou submissos.

Enquanto um ser humano que chega aos 15 anos está no início da vida, um cão de 15 anos é "demasiadamente" idoso. Esqueci de dizer no início do texto que muitas famílias abandonam seus pais ou avós também quando estão idosos ou doentes. Imagine o que não fariam com os seus animais? 

Apesar dos inúmeros conselhos que recebi, não vou abandonar o Kirchof. 



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Solidariedade: coexistência

Anderson Araújo
O filósofo John Stuart Mill esclarece em seu livro "Utilitarismo" alguns argumentos sobre a teoria ética do utilitarismo. Apresenta o utilitarismo como uma teoria ética que busca maximizar a felicidade geral, ou seja, "aumentar a felicidade da maioria das pessoas". Neste caso, ser utilitarista significa promover a felicidade geral. Para isso pode ser necessário o auto-sacrifício do agente, pois este teria que, em algumas situações, abdicar da sua felicidade para tornar outras pessoas felizes. 

É uma teoria que, sem dúvida, é totalmente contrária a uma postura egoísta. Por isso o utilitarismo é uma das teorias éticas mais altruístas que existe. Pois está sempre pensando na felicidade dos outros como objetivo (fim) das suas ações. 

Para Stuart Mill o ser humano tem uma natureza social. Isso significa que temos, naturalmente, uma empatia pelo outro (ser humano) e por este motivo, vamos sempre desejar o bem do outro. Logo, entre a minha felicidade e a felicidade da maioria, eu teria que optar pela segunda. Será que teríamos razões para defender esta ideia de que o ser humano possui uma natureza social? A experiência nos diz que, uma vez inseridos no processo de socialização, podemos aprender a conviver pacificamente com os outros. Mas esta mesma experiência também nos diz que o ser humano é bastante competitivo e tende quase sempre a pensar em si mesmo, até mesmo como estratégia de sobrevivência. 

Ser altruísta ou egoísta não seriam posições que dependem de educação? O altruísmo, ser solidário ao outro, é algo que se aprende ainda nas brincadeiras de criança: compartilhar o brinquedo com o amigo ou até mesmo doá-lo para as crianças carentes. A felicidade do outro torna-se minha preocupação quando aprendo que o outro pode não ter sido tão privilegiado o quanto eu fui. E aí descubro que há muitas razões para dividir o que tenho ou acumulo.

A teoria do utilitarismo é acusada de ser exigente. Mas Stuart Mill lembra que é apenas uma orientação e não um dever ou obrigação. Por isso você não será punido pelos outros por não ter sido solidário ou por não ter se sacrificado pela felicidade da maioria. Se temos uma natureza social, nós mesmos vamos nos punir -  a nossa consciência que vai nos dizer que poderíamos ter agido de outra maneira. Mais uma vez, entendo que esta consciência, ou se quisermos, culpa, só pode ser sentida por aqueles que foram educados na prática solidária. 

Stuart Mill ainda defende uma compatibilidade entre o utilitarismo e a justiça. Pois ambos preocupam-se com o contexto das ações humanas. Cada caso deve ser analisado de acordo com as circunstâncias. Algumas ações consideradas normalmente como ações moralmente ruins podem ser consideradas boas ou necessárias quando a vida e a felicidade de uma maioria está em jogo, como mentir para salvar a vida de alguém de um provável assassinato, ou o roubo de comida no caso de uma pessoa miserável e que está passando fome.

Uma conclusão provisória. A coexistência de pessoas felizes deveria ser um norteador de todo programa educacional, ético e de governo. Posso ser feliz com o outro sem que eu tenha que abrir mão da minha felicidade. Compartilhar, ser altruísta ou utilitarista pode ser fácil, sem que seja necessário o auto-sacrifício do agente. Basta aprendermos a seguir menos a lógica destrutiva do mercado da acumulação. Compartilhar e dividir o que se tem, e principalmente o que se acumula. 

sábado, 1 de outubro de 2011

O Brasil e o "Jeitinho Brasileiro"

Por Anderson Araújo
Sinto-me envergonhado como cidadão brasileiro, apesar de perceber as inúmeras qualidades e características nobres, belas e peculiares ao povo brasileiro, tais como generosidade, alegria e criatividade (que inclui a arte e os esportes em geral); sem falar na capacidade que o brasileiro e a brasileira têm de se esforçar para superar a miséria (na mesa, na saúde e na educação). 

Poderíamos enumerar grandes exemplos de superação, HONESTIDADE e generosidade.  Mas como brasileiro, professor e, pensador, gostaria de expressar a minha indignação e revolta em relação ao famoso "jeitinho brasileiro". Quero deixar claro que não tenho um olhar ingênuo e romântico em relação a outros países, sobretudo da Europa. Há corrupção, mentira e crimes em todos os lugares do mundo! Mas há algo em nossa cultura que sempre é visto com um sorriso "malandro" por parte de muitas pessoas, o jeitinho de fazer o que não pode, o jeitinho de burlar a lei, de enganar o outro e de furar a fila, por exemplo. 

A mãe de CARÁTER nobre ensina ao filho: "Devolva ao outro o que não é seu". Mas a cultura da ESPERTEZA diz que você deve acumular e ganhar sem ter trabalhado ou aproveitar da ingenuidade do outro. A fala da mãe de CARÁTER nobre é vista por muitos como "boba" e "ingênua". 

E então vêm os políticos e a corrupção. Denúncias de fraudes, "lavagem de dinheiro", "laranjas", "Caixa 2" aumento desmedido e SEM MÉRITOS dos próprios salários etc. Crescem as filas nos hospitais e o descaso com médicos e, professores. As crianças crescem com a imagem corrupta dos políticos e, pior, com a imagem da IMPUNIDADE. Os maus exemplos ganham espaço nos meios de comunicação. É verdade, cresceram também as denúncias. Mas pouco vimos ou quase não vimos um político ou outro cidadão SUSPEITO ou ACUSADO de fraude e de corrupção ser punido. 

Vemos vídeos, ouvimos ligações telefônicas como provas de que houve corrupção e, em outras palavras, vimos os CRIMES serem cometidos. Mas vimos e ouvimos também os CRIMINOSOS desmentirem e rirem na frente das câmeras e dormirem em paz, em casa, e não na prisão, lugar de criminosos. 

Por que podemos caracterizar este JEITINHO como BRASILEIRO? Para responder a esta questão, recorro a uma das inúmeras frases e ideias do pensador e músico Tico Santa Cruz, que vem protestando com frequência nos shows, caminhadas e redes sociais contra este jeitinho: "Lembrem-se disso: corrupção existe em todo lugar do mundo! Impunidade é coisa nossa!". Se o Brasil é o país dos maus exemplos é porque os maus exemplos não são punidos. 

Contra o jeitinho brasileiro: leis que sejam executadas e respeitadas. Os cidadãos, ladrões de galinha ou dos cofres públicos devem ser punidos de modo exemplar. Este modo deve ter como principal objetivo mostrar aos outros que determinadas ações não são nem permitidas, nem engraçadas. Privação da liberdade? Pena de morte? Prisão perpétua? São modos que merecem debates e um julgamento de toda a população brasileira.

Independente da ação dos nossos governantes e das nossas autoridades, é necessário encontrar meios de proliferar os bons exemplos, de emancipar o olhar da criança e do adolescente e principalmente dos pais e educadores em geral. Educador não é apenas o professor, mas também o pai, o político, o faxineiro, o músico, o ator e o jogador de futebol. Educador é todo aquele que influencia a vida das crianças. Se você tem este poder e deseja mudar o jeitinho brasileiro, dê o seu recado e o seu exemplo. Que as ações contra o desagradável e criminoso "jeitinho" sirvam para promover a paz, a harmonia e a não-violência. 

sábado, 13 de agosto de 2011

As Virtudes: Humildade e Amor-próprio

Por Anderson Araújo


A humildade é a virtude mais humilde porque o humilde nunca vai dizer que é humilde. O humilde sempre vai ter consciência de que ainda não é humilde, de que precisa melhorar as suas atitudes e de que precisa aprender ainda muita coisa. 

Por isso, pode-se dizer que ser humilde é ser sábio. Pois a pessoa humilde busca aprender sempre mais, está sempre aberta ao conhecimento do novo, do outro e de si mesmo. Humildade é, em outras palavras, conhecimento da própria ignorância. Isso significa dizer que o humilde sabe que ignora, ou seja, sabe que desconhece outros campos do saber e muita coisa sobre o mundo. 

A falta da virtude da humildade é o orgulho. O orgulho é a ignorância da ignorância. O orgulhoso acredita que sabe tudo e que não há mais nada para aprender sobre o mundo com os livros ou com as outras pessoas. O orgulhoso ignora que ignora. Isso quer dizer que ele não sabe que, sobre o mundo e sobre si mesmo, ele não sabe muita coisa; que ainda falta muito para aprender, e por isso mesmo nada aprende.

Saber amar a si mesmo é também uma virtude, pois é a capacidade de, moderadamente, dar um valor a si mesmo. Por isso pode-se dizer que o amor-próprio é um cuidado de si. Cuidado com o corpo, com a mente e com a sua própria imagem. 

Quem tem amor próprio tem autoestima. Por isso a falta de amor-próprio seria uma espécie de baixa autoestima, e por isso um vício - um mau hábito, a capacidade de se julgar com freqüência, inferior em relação às outras pessoas. A falta de cuidado com o corpo, com a “vida intelectual” pode revelar uma baixa autoestima. 

Apesar disso, o excesso de cuidado com a própria imagem também pode revelar uma baixa autoestima, pois aquele que dá um valor excessivo à sua própria imagem se sente inseguro, sem conteúdo e sem valor para as outras pessoas, e por isso, tenta compensar o seu “baixo valor” com a sua imagem, os músculos e a beleza física. 

É bastante sutil a distância entre amor-próprio e a vaidade. Pois ambos dizem respeito ao “ego”, ao “eu” da pessoa. Mas enquanto o primeiro revela apenas amor, cuidado de si e respeito a si mesmo; a vaidade revela que falta amor a si mesmo, respeito a si mesmo, pois ocorre uma supervalorização à imagem e ao corpo, ou ao intelecto.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Vestibular UFMG 2012

Veja abaixo os cursos que terão prova específica de FILOSOFIA na Segunda Etapa do Vestibular da UFMG/2012, além, é claro, do curso de filosofia.

Artes Visuais
Ciências Sociais
Cinema de Animação e Artes Digitais
Comunicação Social
Ciências do Estado
Direito
Conservação e Restauração de Bens Culturais Móveis
Design de Moda

Textos de FILOSOFIA indicados ao vestibular


(Todos estão disponíveis para DOWNLOAD na página da COPEVE/UFMG, mas você pode acessá-los por aqui, clique sobre eles). 




sexta-feira, 24 de junho de 2011

Os melhores anos da nossa vida

Por Anderson Araújo
Os melhores anos da nossa vida são aqueles nos quais sempre é possível um recomeço; são os anos que nos permitem errar, e muito! Não estou dizendo que uma determinada idade não nos permite errar. Estou pensando que alguns momentos nos permitem errar e recomeçar com mais facilidade. Mas é verdade que recomeçar algumas coisas em determinada idade torna-se mais difícil, ainda que possível. 

Apaixonar-se diversas vezes não depende de idade. A idade só torna o amante "calejado". Ele sabe que alguns caminhos não vão dar em nada. Idosos apaixonam-se com desapego, o que é uma grande lição para os jovens. O "velho" sabe que o outro precisa partir para voltar mais belo. É um amor eminentemente contemplativo, de admiração e encantamento - e com liberdade. 

Poder recomeçar uma vida profissional é um dos maiores desafios; é como aprender outro idioma. Novas regras, diferentes comandos, e um jeito de pensar específico. Descobre-se uma nova grande gaveta no cérebro. Ganha-se mais espaço, mais vocabulário e expande-se a memória. 

Sempre ouvi que grandes filósofos são pessoas que viajam muito. As viagens permitem o acesso a outras culturas e povos, nos tornando mais flexíveis com nós mesmos e com os outros, portanto, mais tolerantes. O que me lembra a canção do Frejat, "Amor pra recomeçar": "com os que erram feio e bastante, que você consiga ser tolerante". Há pessoas que não apenas erram conosco, mas erram feio e bastante...

Os melhores anos da nossa vida são aqueles que somos mais tolerantes com os outros. Mas são principalmente aqueles que somos mais tolerantes com a gente mesmo. E acredito que isso só se alcança com  muita vivência. Vivência cronológica, que pode se alcançar com muitos anos de vida, ou vivência subjetiva, a partir de grandes experiências, como perdas, lutos, dores ou também momentos intensos de alegria e de descobertas. 

Por fim, penso que os melhores anos da nossa vida são aqueles que corremos muito para encontrar ou descobrir alguma coisa. São os anos que trabalhamos tanto e estudamos muito para encontrar respostas e fazer perguntas mais interessantes sobre a vida; os anos que passamos em busca de outras conquistas. Nos melhores anos da nossa vida descobrimos que ganhar dinheiro é bom, porém mais importante do que ganhá-lo é acatar o conselho do compositor Frejat: "Diga a ele pelo menos uma vez quem é mesmo o dono de quem", porque os melhores anos da nossa vida são feitos de desapego, de alegria fácil, tolerância, afeto, companheirismo e descobertas. 

segunda-feira, 28 de março de 2011

A Influência da Ilíada e da Odisséia na Formação do Homem Grego

Por Anderson Araújo

Destaca-se a influência dos poemas homéricos na formação do homem grego, influência que se percebe na maneira de os gregos se organizarem e de se posicionarem entre si e internacionalmente, na política, na economia, socialmente e, sobretudo, na formação militar. Pretende-se enfatizar neste texto a influência ideológica, ou seja, a influência das obras na formação do espírito grego, quer dizer, do seu modo de pensar.

Homero compôs as suas obras por volta do ano de 700 a.C., apesar de narrar acontecimentos do ano de1200 a.C. Na Ilíada e na Odisséia, o poeta narra uma guerra entre gregos e troianos, narração que contém fatos possíveis de terem ocorridos realmente, e fatos que podemos chamar de lendas.

A guerra narrada é movida desde o início por paixão e coragem, que consiste no rapto de Helena pelo príncipe troiano. A história se desenvolve acerca deste fato, sobretudo na Ilíada e vai registrar uma outra característica sempre presente no espírito grego na época arcaica que é a estratégia.

O tema da estratégia é ainda mais presente na Odisséia, sobretudo no personagem de Ulisses que é citado por Homero como “o industrioso”. A vitória dos gregos sobre os troianos deveu-se à capacidade industriosa, isto é, de estratégia de Ulisses, ao projetar um cavalo de madeira como presente para os troianos. A Odisséia narra os feitos e a capacidade industriosa de Ulisses no seu regresso a Ítaca.

As obras em questão têm a sua importância na formação do homem grego, uma vez que as crianças eram educadas, iniciadas na leitura e na escrita através da Ilíada e da Odisséia.

Nesse sentido, o menino crescia, lendo os feitos de Aquiles na guerra e as estratégias de Ulisses para vencer a guerra e retornar a Ítaca. O homem grego (sobretudo o ateniense) cresce com o desejo de ser um herói, como nas obras homéricas. Isso o incentiva a treinar para lutar na defesa da sua cidade e na conquista de outras cidades.

O espírito grego é um espírito guerreiro. O jovem ateniense, por exemplo, considerado cidadão a partir dos 18 anos se filho de pais atenienses, é um guerreiro. É importante citar que o ateniense defende a sua cidade no sentido físico, porém com igual ou maior força defende a sua nacionalidade.

Essa ideologia, portanto, vai marcar a diferenciação entre os grupos (“classes”) atenienses, a saber, a diferença entre nobres e pobres. Apesar de os dois grupos terem acesso às obras homéricas e à educação, serão os nobres, aqueles que podem viver no ócio, que terão mais educação e meios para se tornarem melhores guerreiros.

Podemos citar os jogos em Olympia, as competições que os atenienses faziam no templo, momento de diversão mas, sobretudo de confirmação da supremacia dos aristoi (os nobres, “os melhores”) que, movidos pelo espírito competitivo e guerreiro dispunham de tempo e de uma alimentação melhor do que os cidadãos pobres que tinham que se dedicar mais ao trabalho para suprir suas necessidades básicas.

Aquele que terminava vitorioso na competição era equiparado a um herói das obras homéricas, tinha, pois, um prestígio político. Nas festas e nos discursos da cidade, o bom competidor era apresentado, citando a sua descendência (de heróis).

O sucesso do atleta, do político e até um determinado momento, do guerreiro, era aristocrático e não democrático. O cidadão pobre vai ganhar um prestígio e uma ascensão mais tarde, quando sua participação na guerra for necessária.

Assim, podemos concluir que a ideologia das obras homéricas, que são idealizações do guerreiro e do herói, tiveram grande força na educação do homem grego, principalmente na sua concepção de cidadão.

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

A Força da Natureza

Por Anderson Araújo

Eu gostaria de pensar a vida a partir de um filme que vi pela primeira vez há dois anos. Acabo de vê-lo pela décima vez. E quero vê-lo ainda mais umas outras dez vezes pelo menos. Trata-se do filme (*)"Na Natureza Selvagem". Guardo ainda a mensagem que a minha amiga Júnia me enviou há dois anos quando acabara de ver o filme: "Anderson, assista ao filme 'Na Natureza Selvagem'; forte e impactante".

Não quero contar a história do filme. Quero compartilhar o que aprendi com a história real do jovem Christopher McCandless ou "Alexander Supertramp".

Há muito tempo venho observando o comportamento das pessoas no que diz respeito ao dinheiro. Famílias se desfazem e se destroem quando o assunto é dinheiro: inventário, partilha, herança ou doença. No filme, o jovem queima o dinheiro. Ao fazê-lo parece deixar para trás todo peso, ressentimento e amarras porque "o dinheiro deixa as pessoas cautelosas". Suspeita-se de todos e de tudo porque podem querer o meu dinheiro ou porque não querem gastar o seu dinheiro. Por causa disso deixamos de viver a vida plenamente: deixamos de sentir a natureza e de vivenciar afetos. E quem sabe na velhice poderemos concluir que "gostávamos mais dos nossos dias quando não tínhamos um tostão".

O dinheiro não pesa somente o bolso, mas também o coração.

Como ratos vamos juntando, acumulando coisas. E as coisas vêm com os ressentimentos, as mágoas e os desafetos. Ser socialista? Pode ser mais saudável. Porém, mais importante do que isso seria aprender a viver com o que nos é necessário. Porque com o tempo nota-se que "quem tem mais do que precisa, precisa também de mais espaço". Muitos de nós temos a falsa ideia de que só seremos livres quando tivermos "coisas".

Sentir-se um outsider, um estranho ou forasteiro em nossa própria cidade ou cultura não é um crime. Registre atrás do seu diploma que "carreira é uma invenção do século XX". Cuidado com tudo o que lhe é imposto pelos meios de comunicação, pela moda, enfim, pelo mercado. Você não é obrigado a ter uma carreira fantástica. Você precisa apenas sentir o que é bom e importante para você, ainda que isso não corresponda às expectativas das pessoas a sua volta. Aprendi com "Na Natureza Selvagem" que "liberdade e natureza são boas demais para se recusar".

Aprendi também que precisamos "aprender a chamar as coisas pelo nome certo". Em outras palavras, é aprender "a dar nome aos bois". As coisas, sentimentos e ideias que nos assombram, continuarão a nos assombrarem enquanto não aprendermos a identificá-las. Algumas vezes será necessário ir à natureza selvagem para nomear essas coisas. Talvez isso signifique ir até à nossa própria natureza que tantas vezes se nos apresenta como selvagem. Pensando com Nietzsche, poderíamos questionar se nós domesticamos ou adestramos a nossa natureza. Adestrar um animal é bastante diferente de domesticá-lo.

A nossa força não está nos nossos músculos, em nossas posses ou no que temos. A minha força está no que penso a respeito de mim mesmo. A minha força depende do que faço com o que recebo do mundo e do modo com que contribuo com o mundo porque aprendi que "o importante não é ser forte, mas se sentir forte".

Independente de nossas crenças e até mesmo da falta de crenças, aprendi que precisamos aprender a perdoar. A vida não deve ser guiada apenas pela razão. Mas muitas vezes pelo que nos encanta, nos seduz e faz o nosso coração acelerar, porque "admitir que a vida é guiada apenas pela razão é destruir a possibilidade de viver".

Dentre outras citações presentes no filme, a de Lord Byron diz: "Não que ame menos o homem, mas amo mais a natureza". Decepcionamo-nos com pessoas. Mas aprendi com o jovem Christopher McCandless que as pessoas não deixam de ser importantes diante da grandiosidade da natureza, pois são até mesmo necessárias, e porque "a felicidade só é real quando é compartilhada".

Ao fim de 2010, agradeço a todas as pessoas que compartilharam comigo suas dores e alegrias, enfim, suas vivências. Obrigado a todos que apontaram o caminho para a natureza selvagem!

*Baseado na obra de Jon Krakauer, "Na Natureza Selvagem" conta a história verídica de Christopher McCandless. Veja abaixo o trailer do filme.


terça-feira, 12 de outubro de 2010

O Pacto Social, um "Cálculo"

Por Anderson Araújo

Thomas Hobbes elaborou uma hipótese bastante plausível a respeito da natureza humana. Tal hipótese justificaria a necessidade de o ser humano viver em sociedade e, portanto, conviver pacificamente com os outros humanos.

No "Leviatã", um dos principais livros de Hobbes, ele caracteriza o ser humano inserido num hipotético "estado de natureza", no qual ainda não havia nem leis, nem propriedade privada. O homem era livre e, de certa maneira, podia fazer o que quisesse, pois não havia lei que restringisse o seu desejo. Mas sendo todos os seres humanos igualmente livres, num mundo sem leis, poderia haver tranquilidade, quer dizer, paz?

Não, pois se todos podem realizar os seus desejos sem impedimento algum, o homem vive constantemente sob o medo de perder o que é seu e até mesmo a própria vida. Neste sentido, Hobbes afirma que reina o medo e a insegurança no estado de natureza. Neste estado vive-se "uma guerra de todos contra todos", ou pelo menos a possibilidade constante desta guerra.

Por isso, os homens resolvem fazer um acordo ou pacto para garantir as suas conquistas e, portanto, a paz. Eles se associam e se organizam, formando o estado político. Neste estado há leis e um soberano que garante a paz e a ordem. Interessante notar que em Hobbes o homem não é naturalmente um animal político como pensou Aristóteles, mas um animal que age naturalmente em seu próprio benefício.

Para Hobbes a sociedade é resultado de um pacto para garantir a vida do homem. Hobbes diz que o homem faz um "cálculo", raciocina, utiliza a razão para garantir a sua vida e conclui, visando a conservação da vida, que o estado político é a melhor forma de vida, ainda que este estado limite as liberdades individuais.

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

HOBBES, Thomas. Leviatã. Trad. João Paulo Monteiro. São Paulo: Martins Fontes, 2008.





quarta-feira, 22 de setembro de 2010

O "Caso Neymar" e o Problema da Autoridade

Por Anderson Araújo

Como você ensina a uma criança que ela precisa respeitar ou seguir algumas regras para não apenas viver em sociedade, mas conviver bem com os outros? Geralmente as crianças têm dificuldade para enxergar isso. Logo que a criança inicia o seu processo de socialização ela precisa aprender as regras e as normas do grupo: compartilhar ou não brinquedos, a proibição de mexer nas coisas das outras pessoas, cumprir horários etc.

Em minhas experiências com o ensino de ética para crianças e pré-adolescentes sempre utilizei a imagem do esporte, sobretudo a do futebol para falar das regras necessárias para nos comportarmos no convívio com o outro. Um jogo de futebol possui várias regras que, não respeitadas geram punições como cartões amarelo ou vermelho: "a regra é clara". Todo jogador deve saber como se portar em campo para não ser penalizado e pode, inclusive, ser expulso de campo dependendo da intensidade das faltas ou da gravidade da sua conduta em campo.

Além disso, todo time possui uma autoridade, o técnico ou comandante, também chamado por muitos atletas de "professor". Ele é responsável por treinar a equipe e por isso conhece bem os seus jogadores. A autoridade deve ser reconhecida e, portanto, respeitada. Este reconhecimento é condição necessária para que haja harmonia na equipe e sintonia na execução dos comandos do técnico.

Podemos transferir todas as características do técnico para um pai, um professor, um gestor, um líder ou um chefe, ou seja, para posições de autoridade. Toda autoridade sempre foi e é questionada, sobretudo pelo adolescente. O problema é que muitos pais ou autoridades terminam cedendo às vontades da criança ou do adolescente. O pai precisa escutar o filho, dialogar com o filho, para que a conduta não fique caracterizada como autoritária. Mas compreender uma criança ou um adolescente não significa que se deva acatar a opinião dele ou dela.

Um fato recente no futebol vem gerando muita discussão em todos os lugares. O jovem atacante do Santos, Neymar, insultou o técnico do time, Dorival Júnior, após ser proibido de bater um pênalti na partida contra o Atlético-GO (15/09/10). Diante disso, o técnico resolveu punir o jogador santista, deixando-o de fora da próxima partida e possivelmente de outras para que o "menino da Vila" refletisse sobre a sua conduta. Muitas pessoas discordaram dessa decisão do técnico, inclusive os dirigentes do clube, que decidiram em acordo com Dorival, pela demissão do comandante, campeão do Campeonato Paulista e da Copa do Brasil com o time do Santos neste ano de 2010.

Desconhecemos questões internas do Clube. Mas a nossa análise dos fatos nos sugere que o técnico agiu como deveria agir uma autoridade. Na minha visão ele não agiu com autoritarismo. A atitude do técnico revelou uma preocupação com o jovem atleta e com o grupo dos jogadores. Neymar não reconheceu a autoridade do técnico, não seguiu as regras. O "menino" quis que a sua vontade fosse soberana. Enquanto o técnico sinalizou que se deve respeitar algumas decisões para o sucesso da equipe. A decisão da autoridade revela que mesmo o mais belo, o mais inteligente ou aquele que tem a melhor remuneração em relação aos outros integrantes do grupo deve seguir algumas regras.

É fato que Neymar é a estrela do time. Pode-se e deve-se respeitar os fatos e o talento dele; mas também deve-se preservar as normas de boa convivência. Futebol é exemplo para muita criança, sobretudo na vida daquelas que veem nele uma salvação em suas vidas. Futebol é inspiração e motivação. Futebol restaura a vida de muitos jovens. Futebol educa e mostra a importância da equipe e de um maestro. Futebol ensina disciplina, e é exemplo de que educar não é castigar, mas mostrar limites. Futebol ensina que autoridade é diferente de autoritarismo. Pois não é obediência inquestionável, mas direcionamento, orientação e referência.

Que o Neymar continue inspirando muitas crianças a acreditarem no esforço, na importância do treino e da disciplina, apesar de o recente episódio ter demonstrado que ele ainda não sabe lidar com autoridade. Termino este post com a seguinte problematização: o problema é o Neymar que se posiciona como soberano, ou as autoridades em torno dele que fazem dele um rei? É a criança que "manda no pai" ou é o pai que permite a soberania precoce do filho?

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

A Crença no Hábito

Por Anderson Araújo

Para o filósofo David Hume, o nosso conhecimento do mundo se dá por meio de percepções. Ele as subdivide em impressões e ideias. As primeiras, as impressões, são as percepções atuais que temos das coisas e do mundo, são portanto, fortes e mais vivas. Enquanto as ideias são fracas e menos vivas porque geralmente são cópias das impressões.

Segundo o filósofo esta diferenciação é fácil para nós, pois facilmente distinguimos entre sentir e pensar. O modo como a impressão ocorre na mente é forte, e tem também um efeito peculiar. Uma impressão não é meramente pensada, mas acreditada. A força e a vivacidade significam o modo como aparece a percepção na mente e o efeito que causa à mente.

Exemplificando, posso ir ao museu e ver uma pintura de Picasso. Neste caso, enquanto vejo a pintura, tenho a impressão da pintura; trata-se de uma percepção forte e viva. Mas numa conversa com um amigo, na qual me lembro da minha visita ao museu e lhe descrevo a minha percepção da pintura, trata-se de uma ideia, uma percepção fraca e menos viva.

De acordo com Hume, todo o nosso conhecimento é baseado em nossas experiências. Por isso, ele vai dizer que determinadas conclusões que chegamos sobre o mundo e as coisas não são fundamentadas na razão, mas no hábito. O fato de vermos todos os dias uma relação entre A e B, por exemplo, faz com que toda vez que vemos A, lembremo-nos de B. Além disso, o nosso conhecimento é fundamentado em relações causais, ou melhor, na causalidade; que é a ideia segundo a qual todo efeito deve ter uma causa.

Nossas certezas sobre o futuro devem-se à nossa crença no hábito. Acostumamo-nos a ver que o Sol nasce todos os dias. Logo, concluímos que ele nascerá também amanhã e no futuro. Ou seja, este conhecimento é fundamentado numa crença que obtemos pela regularidade com que as nossas experiências se repetem, produzindo o hábito ou o costume. Desse modo, podemos concluir em breves palavras que para Hume a nossa mente é um feixe de percepções, pois todas as nossas ideias têm origem na impressão sensível; e que não estamos diante de uma conexão necessária na relação entre causa e efeito, mas diante de uma associação baseada na regularidade de eventos que ocorrem na experiência.

Estamos diante de uma explicação bastante plausível do funcionamento da mente humana que nos faz pensar sobre os motivos ou razões pelas quais adotamos determinadas crenças ou opiniões sobre nós mesmos e sobre o mundo. Fundamentamos nosso conhecimento somente na razão ou na experiência? O nosso conhecimento é racional ou é apenas uma crença em regularidades? Descobrir esta explicação da mente humana muda ou compromete o nosso modo de ver o mundo?

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.


domingo, 29 de agosto de 2010

Orgulho e Narcisismo

Por Anderson Araújo

O filósofo escocês David Hume (1711-1776) defende o orgulho de si como uma paixão positiva. Para Hume, somente quando o “eu” é levado em conta que podemos sentir orgulho. O “eu” é objeto do orgulho, mas não pode ser a sua causa. Causas possíveis do orgulho seriam coragem e justiça, por exemplo; e também, beleza e força. Ele entende que essas causas são naturais ao homem. Então, aquilo que nos move, isto é, as nossas paixões, pertencem à nossa natureza.

O contrário do orgulho para Hume seria a humildade. Toda causa de orgulho nos causa prazer, e o contrário nos causa mal-estar. Para que produza orgulho ou humildade, é necessária uma relação estreita, própria, específica da causa conosco, quer dizer, com a nossa natureza. Assim, só vai sentir orgulho de sua saúde, alguém na velhice, pois na juventude é constante. Sinto orgulho daquilo que me é específico e que é até extraordinário. Simplificando, podemos dizer que o sentimento de orgulho é marcado pelo caráter extaordinário de alguma característica ou talento que possuímos.

Narcisismo e Amor-próprio

Na mitologia grega encontramos a história do jovem Narciso. Um jovem de beleza singular marcado por uma profecia: se um dia visse a si mesmo, morreria. O amor de Narciso por si mesmo é desmesurado. Narciso bastava-se a si mesmo. A sua auto-suficiência o impedia de se relacionar com os outros e justifica sua indiferença em relação às pessoas.

Denominamos então de narcisista a pessoa que só tem olhos para si mesma. O que não deixa de ser uma espécie de egoísmo. Caetano Veloso expressa numa canção o drama de Narciso: "Narciso acha feio o que não é espelho". O amor-próprio pode ser considerado uma forma de cuidado de si e de respeito consigo mesmo. No amor-próprio há equilíbrio no sentimento, o que permite o reconhecimento da alteridade na relação, ou seja, no amor-próprio pode-se falar de coexistência de "belezas", de "pessoas" e não em submissão dos outros à beleza de um indivíduo como a que ocorre no narcisismo.

Ler mais sobre orgulho e outras paixões em:

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Autoridade X Autoritarismo

Por Anderson Araújo

As pessoas tendem a recorrer a instrumentos quando perdem o poder ou quando o seu poder não é reconhecido. A filósofa Hannah Arendt diz que a violência se distingue do poder pelo seu caráter instrumental, ou seja, pelo uso de instrumentos e de armas.

De certa forma o ser humano busca sempre o poder. Isso pode soar estranho aos ouvidos de muita gente, porque conhecemos através da História grandes tragédias e guerras pelo poder. Logo, é porque estamos acostumados com uma face negativa do poder que o julgamos como algo negativo, motivo de guerras, traições e violência em geral.

Digo que todos buscamos o poder no sentido definido pelo filósofo Michel Foucault, no sentido de que poder é apoio, consentimento, voto. Para tanto, só possui o poder aquele que tem o reconhecimento dos outros, enfim o respeito. Com o uso de instrumentos obtemos qualquer outra coisa, menos o poder legítimo. Com o uso de armas obtém-se uma obediência baseada no medo: o medo de ser punido, machucado ou até mesmo de perder a vida.

Desse modo podemos inserir o tema "autoridade e autoritarismo". Um pai é autoridade, um chefe e um professor também. Reconhecemos o lugar de cada um deles em nossas relações; merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Mas este apoio é conquistado. Seja por um carisma ou pela "função" que desempenha nesta relação.

A relação entre pais e filhos merece mais a nossa atenção. Sobretudo porque se tem discutido muito nos últimos dias sobre a lei que proíbe palmadas. A relação entre pais e filhos é genuinamente uma relação de poder. Por isso, de certa maneira, o que está em jogo na indisciplina da criança é o fato de que a autoridade não foi respeitada. O diálogo é o meio legítimo para que se estabeleça o poder ou para que ele seja reconhecido.

Muitas pessoas têm preguiça de dialogar ou até nem sabem fazê-lo. Mas é o meio mais eficaz e humano de restabelecer o poder e de educar as crianças. Muitos pais também confundem a ideia de diálogo, pensando que dialogar é ceder sempre e acatar todas as decisões da criança. Diálogo não é isso. Diálogo é esclarecimento, respeito, escuta e momento oportuno para mostrar à criança que ela tem o poder de ser escutada, ainda que ela esteja errada ou equivocada sobre certas atitudes e decisões. Cabe aos pais mostrar o erro ou o equívoco da criança e de esclarecer inclusive que, acerca de alguns assuntos, não cabe ainda à criança a tomada de decisões.

Nós ouvimos uma autoridade e dialogamos com ela, expressando nossas opiniões. Numa relação autoritária, de autoritarismo, nós obedecemos porque temos medo: medo de que o outro grite conosco ou fale mais alto; medo de perder o emprego; medo de perder a "mesada" ou no caso da criança, de levar uma palmada. Um poder autoritário é um falso poder, pois é reconhecido pelo sentimento de medo ao qual uma pessoa é submetida. Enquanto na relação com uma autoridade o diálogo favorece a circulação do poder entre as partes, no autoritarismo não há reconhecimento do poder do outro, mas submissão de uma das partes.

"Eu não concordo com nenhuma palavra do que dizeis, mas eu defenderei até a morte o seu direito de dizê-la". (Voltaire)



sábado, 14 de agosto de 2010

"Meu Pequeno Atleticano"

Por Anderson Araújo

Em "Meu Pequeno Atleticano", Wilson Sideral narra o primeiro dia do seu "Pequeno" Igor no "Gigante da Pampulha", o velho Mineirão. É a final do campeonato mineiro. Sideral descreve o entusiasmo de uma criança que vai pela primeira vez a um estádio de futebol. Neste caso, trata-se de uma experiência transcendente, porque é no Mineirão, jogo do galo e, final do campeonato mineiro!

O pai do Igor conta a história do galo durante a final do campeonato mineiro. Por meio de uma conversa entre Pai e Filho, conhecemos as conquistas do Clube Atlético Mineiro e os ídolos da torcida: o famoso "tropeiro" do Mineirão, Reinaldo, Dadá Maravilha, Marques, Tardelli e outros.

Um livro para "Grandes" e "Pequenos" atleticanos!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dúvida

Por Anderson Araújo

René Descartes adotou o método da dúvida como estratégia de argumentação. Em "Meditações Metafísicas" ele fala sobre "as coisas que se podem colocar em dúvida". Ele lembra que normalmente nós recebemos falsas opiniões como verdadeiras. Com o seu método, pretende rejeitar todas as opiniões que forem falsas ou que lhe parecerem falsas. Isso demonstra um certo rigor em seu método.

O filósofo lembra que os sentidos nos enganam. Além disso, nós também nos enganamos quando dormimos, pois diversas vezes confundimos sonho e vigília. Em alguns sonhos achamos e sentimos que estamos acordados e que estamos de fato vivenciando determinadas situações. Logo, nós confundimos sonho e realidade.

Como podemos comprovar se estamos dormindo ou acordados? Nós nos alegramos quando sonhamos, sentimos dor, medo, prazer e tristeza como se estivéssemos acordados. Você não estaria sonhando neste momento em que lê este post de filosofia? Você pensa que está sentado em uma cadeira ou poltrona e que está diante do computador, mas também não poderia estar "na horizontal" sonhando com tudo isso?

Este pensamento pode parecer banal, simplório, ou louco. Mas tem um grande valor filosófico no sentido de nos alertar para a necessidade da dúvida em nossos raciocínios e argumentações. Somos passíveis de erro, sujeitos ao engano. Logo, devemos tomar cuidado com as opiniões que recebemos dos outros e com o nosso conhecimento do mundo em geral. A dúvida nos possibilita um conhecimento mais seguro das coisas e de nós mesmos.

Entretanto, o filósofo René Descartes não se contenta com a dúvida. Sua investigação pretende chegar ao que não se pode colocar em dúvida. É aí que ele chega no princípio "Cogito ergo sum", ou seja, "Penso, logo existo". "Eu estou pensando" é princípio e é puramente intelectual, razão pela qual não posso duvidar. "Eu estou pensando" é indubitável porque é evidente. Mesmo duvidando que estou pensando é indubitável que penso ao duvidar. Já "eu estou suando" não é indubitável porque é um dado da experiência que não é claro, nem evidente. Para Descartes é indubitável aquilo que é puramente intelectual.

Apesar disso, essa problematização gera um longo e interminável debate entre os filósofos. Um deles é se realmente podemos provar a existência daquele que pensa a partir da capacidade de pensar. E ainda, ao descobrir que penso, posso até provar a minha existência, mas como provar a existência das outras pessoas e das coisas ao meu redor?

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

DESCARTES, René. Meditações Metafísicas.





domingo, 1 de agosto de 2010

"Você se sente em casa no mundo?"

Por Anderson Araújo

“- Keegan: O senhor se sente em casa no mundo, então? - Broadbent: Claro. O senhor não? - Keegan: (do fundo de sua interioridade) Não. - Broadbent: (jovialmente) Experimente pílulas fosfóricas. Eu sempre as tomo quando sinto o cérebro cansado. Dar-lhe-ei o endereço na Rua Oxford.” (...). (Cena da peça de Bernard Shaw, John Bull’s Other Island)

Penso que o estranhamento do mundo, do mesmo e do outro é condição de possibilidade para o filosofar. Uma vez que, como Bornheim, acredito que o que leva o homem ao filosofar é um processo, a saber, um processo dialético. Dialético porque envolve três momentos. O primeiro é a afirmação dogmática do mundo; o segundo é a experiência da negatividade; e o terceiro, poderíamos dizer, a postura de assumir a filosofia como projeto de vida.

O primeiro momento pode ser até marcado por uma admiração, mas ingênua, e é oposto ao encantamento e ao espanto descritos acima, pois é um momento passivo, sem reflexão e sem questionamentos. Uma admiração do homem que não pensa nem a si mesmo e nem o mundo como problema, é a postura do homem adaptado a um mundo pronto e, portanto, seguro. No segundo, quando o homem vive a experiência negativa, quer dizer, o momento de estranhamento, a afirmação dogmática e segura do mundo dá lugar à dúvida e, assim, à insegurança. E aqui reside a possibilidade de se avançar em direção ao filosofar, caso este momento seja superado. A negação teria aqui um valor metodológico, é o caminho, não é o fim.

O terceiro momento do processo dialético que nos leva ao filosofar é o momento de assumir a filosofia como projeto de vida, isto é, o de abandonar as falsas seguranças, mesmo que para tal seja necessário assumir uma “moral provisória” como o fez Descartes. E aqui um detalhe importante que é a provisoriedade. Pois, Nietzsche já dissera que as nossas convicções são as nossas piores inimigas.

Logo, o filosofar é marcado pela provisoriedade, que traz consigo uma certa insegurança, pois o mundo não é e nunca será sempre o mesmo. O mundo se nos apresenta como mistério, assim como nós mesmos o somos. Todavia, o caráter misterioso do mundo e de nós mesmos não impede que a filosofia investigue e questione o mundo e a nós mesmos. Pois, a filosofia problematiza, mas também argumenta, formulando juízos, afirmativos e negativos.

O que posso conhecer? Ora, se aprendo com o processo dialético do filosofar que os fenômenos me são estranhos como o sou para mim, o que me resta poder conhecer? O fato de o mundo se me aparecer estranho não me impede de conhecê-lo e de explorá-lo. Acredito que tal fato apenas nos impede de sermos pretensiosos quanto às nossas afirmações acerca do mundo.

A partir de Descartes, o saber é fundamentado no “cogito, ergo sum”. E para alcançá-lo tem-se um método seguro, que nos permite chegar, portanto, a um conhecimento seguro. Temos aqui uma ideia de conhecimento atrelada à ideia de verdade infalível. Podemos duvidar sobre a existência das coisas, mas não podemos duvidar que estamos pensando sobre a existência das coisas e o duvidar, que é pensar, prova a existência de um ser pensante. O pensamento teria, pois, uma grande importância para o conhecimento.

Nietzsche e outros filósofos questionaram a postura cartesiana acerca do conhecimento. Temos em Descartes uma pretensão absoluta de um conhecimento infalível acerca da realidade. É a ideia de um sujeito que pode ser caricaturizado pela imagem tradicional e popular do cientista, a do “homem de branco e de óculos”, capaz de desnudar a realidade depois de um determinado tempo de pesquisa, pois pode desvendar os segredos dos seus objetos de pesquisa, através da observação e da razão.

Enxergar o mundo e a nós mesmos como objetos seguramente decifráveis, nos levaria a uma visão dogmática e fragmentada da realidade. A minha postura sobre o conhecimento é, em princípio, “nietzschiana”, pois é orientada pela ideia de um saber que se constrói perspectivo. Portanto, há perspectivas porque há limites no meu conhecimento. Não posso conhecer o todo pela parte, e Kant já demarcara que não posso conhecer todas as coisas, pois há limites para a razão.

À questão “o que posso conhecer?”, posso responder como Kant: posso conhecer fenômenos, e como Nietzsche: perspectivamente. Há limites para a razão e para a consciência. A existência de tais limites não deve paralisar a nossa investigação filosófica. Pelo contrário, ela deve nos orientar para uma postura despretensiosa que se perceba limitada e atenta à pretensão de que se pode conhecer a totalidade das coisas ou dos seres. Um conhecimento seguro é, pois, um conhecimento que se perceba limitado e sempre a caminho.

Portanto, a filosofia nos ensina que, primeiramente, devemos ter uma capacidade de estranhar o mundo. Aprendemos também que o estranhamento, a inquietação, podem se manifestar de diversas formas. Resta dizer que a experiência negativa pode ser passiva e ativa. O homem que tão somente “não se sente em casa no mundo”, necessariamente não está filosofando. Ele pode estar mergulhado numa espécie de pessimismo doloroso que o impede de avançar em direção ao filosofar. Podemos nos sentir fora de casa no mundo em diversos momentos, mas eles devem ser superados, sobretudo pela via argumentativa e discursiva, o que seria uma experiência negativa ativa. É verdade que inseridos no processo do filosofar veremos o mundo com outros olhos, mas não significa que estaremos protegidos de assumirmos outros olhares dogmáticos em nossa vida.

Sobre o processo dialético do Filosofar: BORNHEIM, Gerd. Introdução ao Filosofar. Porto Alegre: Globo, 1978.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

O Problema da Justiça

Por Anderson Araújo

O diálogo sobre a justiça acontece entre Céfalo (um ancião), Polemarco (seu filho) e um dos filósofos mais importantes para o desenvolvimento da filosofia: Sócrates. No decorrer do diálogo chegam outros personagens, mas refletiremos apenas sobre o trecho inicial do livro I de A República de Platão.

Sócrates é convidado para ir à casa de Céfalo. Todos gostavam muito de conversar com o filósofo. Pois, ele utilizava um método interessante para ensinar. O método é a Dialética. O que é isso, dialética? Examinemos o diálogo para compreendermos esse termo e o problema da justiça.

Céfalo afirma que a Justiça consiste em falar a verdade e devolver ao outro o que lhe pertence. Sócrates aponta um problema na definição de Céfalo sobre a justiça. Qual é o problema? Sócrates exemplifica: Imaginemos que José receba uma arma do seu amigo (Luiz) para guardar. Certo dia, Luiz bate à porta da casa de José e lhe pede a arma que anteriormente pedira que guardasse. No entanto, José percebe que Luiz está um pouco alterado, provavelmente, com perturbações mentais, pensou José. O Luiz deve ter batido a cabeça em algum lugar ou deve ter tomado alguma bebida muito forte. (Estes nomes, Luiz e José não fazem parte do texto original). Sócrates se utiliza desse exemplo a fim de mostrar para o seu interlocutor, Céfalo, que, se a Justiça consistir em falar sempre a verdade e dar a cada um o que lhe pertence, seria então justo que o José entregasse a arma ao Luiz nessas condições. Mas ninguém concordaria em dar a arma para uma pessoa perturbada.

Céfalo diz que de fato errou em sua definição de Justiça. Pois, a Justiça consiste em falar a verdade e devolver a cada um o que lhe pertence, mas de acordo com as circunstâncias, ou seja, só se pode falar a verdade e entregar a alguém o que lhe pertence se este não estiver perturbado das ideias. Céfalo sai de cena e deixa o seu filho Polemarco conversando com Sócrates. É certo que não desejamos o mal aos nossos amigos, mas, e no caso de nossos inimigos, pergunta Sócrates a Polemarco, teremos que lhes devolver o que lhes devemos?

Polemarco responde que sim. Porque uma pessoa só deve ao seu inimigo o mal. Sócrates percebe também um problema na fala de Polemarco e lhe pergunta: “O que deve fazer um médico?” Polemarco responde: “dar remédios para os doentes”. Sócrates pergunta a Polemarco: “A Justiça consiste em fazer bem aos amigos e mal aos inimigos?” Polemarco responde que sim.

Sócrates lembra que a medicina não foi criada para fazer o mal ao doente, pelo contrário, o médico só deve fazer o bem. Com isso, Sócrates está empregando o seu método que é a Dialética. É uma espécie de jogo que acontece na maioria dos diálogos Socráticos. Neste diálogo, sobre a Justiça, Sócrates percebe que Céfalo e Polemarco dão falsas definições de Justiça. Pois, tanto Céfalo quanto Polemarco não apresentam uma definição universal de Justiça. Eles apresentam definições particulares. As definições que interessam ao filósofo são as definições universais, quer dizer, aquelas que podem ser usadas em todas as situações. Neste caso, a definição de Justiça, assim como a definição de medicina exige uma aplicação imparcial, logo, o "homem mau" merece cuidados médicos e tem direito de ser assistido pela Justiça.

Para Sócrates, a definição de Justiça deve servir para todos os casos. As definições não podem se contradizer. Sócrates nos ensina com a filosofia que não podemos dizer que algo é bom e mau ao mesmo tempo. A definição de Justiça deve ser útil e boa para todos os casos. A Dialética, este método que a filosofia sempre usou, nos ensina a usar os conceitos de uma forma clara e precisa, para que todos compreendam e não sejam enganados por argumentos falsos.

Sócrates, ao empregar a Dialética, dizia que fazia um trabalho de parteira. Pois, para ele, todas as pessoas estão “grávidas”, grávidas de ideias. E para fazê-las nascerem é necessário o trabalho de um filósofo. Esse método dialético é chamado de maiêutica, que é fazer o outro descobrir por si mesmo a verdade que parecia desconhecer. É a arte de fazer o outro “dar à luz às suas idéias”.

Referência Bibliográfica

PLATÃO. A República. Livro I. Tradução Carlos Alberto Nunes. Belém: EDUFPA, 2000.


sexta-feira, 16 de julho de 2010

Educação, uma Emancipação do Olhar

Por Anderson Araújo

O filósofo Platão nos apresenta em seu livro República, a Imagem da Caverna, mais conhecida como Mito da Caverna. Na Imagem da Caverna, temos uma situação onde se encontram homens presos por correntes, desde crianças, no interior de uma caverna. Eles estão presos de tal modo que não podem mover o pescoço, logo, são obrigados a olhar para frente eternamente. E o que eles vêem, eternamente? Sombras de objetos projetadas por um fogo na parede da caverna. Acontece que um deles é libertado e tem a oportunidade de olhar o mundo a partir de um outro lugar, a saber, fora da caverna. Um prisioneiro é solto e pode conhecer os objetos que eram projetados pelo fogo na parede da caverna, e ele pode ainda mais, sair da caverna e ver o sol.

Ora, o mesmo se passa conosco, afirma Sócrates, a respeito da nossa condição humana. Dizemos condição humana, porque somos homens que vivemos no mundo, e, porque vivemos no mundo, relacionamo-nos com homens no mundo. E, imersos em relacionamentos humanos, no mundo, somos sujeitos a diversas posições a respeito de nós mesmos e do mundo. E essas posições nem sempre são fruto de reflexões, ou de imagens críticas de nós mesmos e do mundo. Muitas vezes, são imagens distorcidas, tomadas como “a verdade”, “o sentido”, “o real”, caracterizadas por serem eleitas na ausência de reflexão.

Assim, não cabe à educação propor a visão de uma verdade ou do real, mas condições de possibilidades que nos permitem ser facilitadores da visão dos diversos sentidos de mundo, diria o educador Paulo Freire. Platão e a Imagem da Caverna nos orientam nesta posição. Pois, estamos falando de uma educação do olhar. Na língua grega há diversos modos do verbo “ver” que se ligam a modos de conhecimento. Assim, o verbo “ver” é utilizado muitas vezes pelos gregos para se referirem às muitas formas de conhecimento.

Retornemos, pois, à caverna. Os prisioneiros eram obrigados a ver sempre as mesmas coisas, tinham o olhar orientado para uma única direção. Eles poderiam refletir sobre o que viam? Sim. No entanto, somente sobre o que lhes era apresentado. Não podiam caminhar e buscar uma outra imagem, não tinham um olhar emancipado. Podiam, talvez, fechar os olhos. A liberdade dos prisioneiros se resumiria, talvez, nesta possibilidade de fechar os olhos. Mas, também, nem não sabiam ou nem quereriam, uma vez que não tinham outras possibilidades de “passar o tempo” e de se divertirem.

Mas, um dos prisioneiros tem a oportunidade de ver “mais”, de conhecer melhor o mundo. E, aqui, apontamos para uma condição de possibilidade de uma educação que emancipa o olhar. É uma educação que oportuniza meios, ou momentos, para que o educando ou o aluno, possa ver “mais”. Não é a idéia de ver muito mais, como adição na matemática. Mas, que oportuniza pelo menos mais de uma visão acerca de si mesmo e acerca do mundo.

A educação assumiria, então, as posições de mãe ou de pai, porque usamos o termo emancipação. No entanto, ela é um pai-mãe “ideal”. É o que o professor, o facilitador ou o educador faz com o seu aluno. A educação seria justamente o contrário de um paternalismo. Ela deve emancipar o olhar do aluno. E o desafio para o professor “facilitador” é o de mostrar para o aluno que ele é sujeito, portanto, homem dotado de uma capacidade reflexiva que o permite conhecer sentidos do mundo, e que o torna capaz de escolher ou não, alguns sentidos do mundo. Educação seria, talvez, mostrar, sutilmente, a possibilidade de uma vida sem os pais, logo, a tarefa do educador é, neste sentido, emancipar o olhar do aluno.

Assim, pensamos que a educação teria, de um lado, o privilégio de poder corrigir o olhar das pessoas. E, por outro lado, o professor teria que ser um polýtropon, palavra grega que significa “aquele que se vira de muitos modos”. O professor teria que, primeiramente, estar, não emancipado, mas no processo de emancipação do olhar. Pois, sabemos que o conhecimento se dá num processo, e não podemos, se estivermos numa atitude reflexiva e, portanto, filosófica, apontar para uma posição totalmente emancipada, segura de si, dogmática.

O professor teria que, então, antes de cuidar para que aconteça a emancipação dos outros, estar, ele mesmo, no processo emancipatório. Ele deve cuidar-se de si, ocupar-se de si. Só então ele poderá ocupar-se dos outros. Assim, a educação assume também um caráter terapêutico, mas despretensioso. Porque não podemos pensar na relação professor-aluno como uma relação de mestre e discípulo, mas numa relação que é construída entre sujeitos. Enquanto possibilito que o outro veja outros sentidos de mundo, também conheço, através dele, outros sentidos de mundo, e, juntos, construímos outros sentidos de mundo.

Assim, uma educação que liberta, e que por isso mesmo é humana, é aquela que se preocupa com o olhar das pessoas. E, para que ela ocorra, faz-se necessário que o professor seja um polýtropon despretensioso, que ele não tenha a intenção de agradar ou de “bajular” o olhar do aluno, mas que se vire de muitos modos para libertar o olhar do aluno de uma única imagem, ou melhor, que ele aponte pelo menos possibilidades que permitam ao aluno escolher se deseja se libertar ou não, de uma imagem.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BORNHEIM, Gerd. Introdução ao Filosofar. Porto Alegre: Globo, 1978. p.47-80.

PLATÃO, A República. Trad. Carlos Alberto Nunes. 3ª ed. Belém: EDUFPA, 2000. p.319-357.