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quinta-feira, 24 de junho de 2010

"Tenho, logo existo?"

Por Anderson Araújo

Vivemos numa sociedade marcada pela técnica de produção, em que o mais importante é produzir e fabricar muito, pois é uma sociedade consumista. Não há o espaço para a contemplação e para o pensar, já que o indivíduo é treinado para produzir. Basta que siga modelos e fórmulas para realizar o seu trabalho.

Se o objetivo é, além de produzir, fazer com que os outros consumam, estamos numa sociedade que coloca o “ter” no lugar do “ser”. Esta sociedade privilegia a obtenção de coisas, roupas, celulares e carros de última geração para alcançar uma sensação de realização e de status. É a lógica que diz “tenho, logo existo”. Os meios de comunicação divulgam a ideia de que o indivíduo que existe é aquele que “se permite fazer compras”.

Nessa sociedade, imediatista, que exige soluções rápidas para os seus problemas, a filosofia é vista com preconceitos, se o importante é ter, não há espaço para refletir sobre as ações humanas. Os problemas de falta de sentido, carência afetiva, e de falta de autoconhecimento são solucionados com uma ida ao shopping, ou com o uso de bebidas alcoólicas.

A contemplação pode ser considerada como o primeiro passo para a investigação filosófica. Pois através da contemplação que o homem percebe que o mundo e as coisas não são como ele pensa que são. Ao contemplar o mundo, o habitual e o comum se tornam estranhos para o homem. E ao estranhar o mundo, o homem começa a fazer perguntas e questionamentos sobre o mundo.

Sem a contemplação, o homem não pode perceber o quanto existem coisas, lugares e ideias que possam ser investigadas. A contemplação produz dúvidas e questões naquele que contempla, o que é positivo para a investigação filosófica.

Essa prática não é muito empregada em nossa sociedade, porque as pessoas têm pressa para obter coisas e conhecer as coisas. A leitura de livros é substituída pela TV e por games, os passeios e caminhadas em parques e praças que propiciam o espaço para contemplação são substituídos por passeios em shoppings. Logo, se a contemplação exige tempo, reflexão e análise, ela é pouco valorizada em nossa sociedade imediatista e consumista.

Dessa maneira fica mais evidente a necessidade da filosofia e o seu valor. Aquele que a estuda pode perceber que não se trata de um passatempo, mas de conhecimento das possibilidades para alargar a sua mente e para torná-lo menos vulnerável à sociedade de consumo. A filosofia destaca a importância de “ser”, o que só é possível através do conhecimento de si mesmo e do mundo (contemplação).

Portanto, a filosofia sempre terá o seu valor. Talvez faltem oportunidades para que as pessoas conheçam melhor a filosofia. Mas os meios de comunicação não dão este espaço, pois as pessoas, ao ampliarem a sua visão de mundo através da filosofia, compreenderiam que não é importante consumir para “ser” alguém.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Os Cinco Sentidos e o nosso Conhecimento do Mundo

Por Anderson Araújo
Nas aulas sobre ilusão e engano tenho problematizado sobre os cinco sentidos. O que está em jogo é mostrar que nós falhamos e nos enganamos facilmente. Em outras palavras, é necessário colocar em dúvida o nosso conhecimento, sobretudo o que nos vem pelos sentidos, quando pensamos sobre o que pode ser a verdade em Filosofia.

Os nossos sentidos (olfato, paladar, visão, audição e tato) são meios através dos quais nos relacionamos com o mundo e conhecemos o mundo; são pontes que nos dão acesso às coisas. Mas este acesso nem sempre é confiável. Confundimos odores, sabores, imagens, sons e superfícies. Nenhum dos nossos cinco sentidos é perfeito. E com a idade, alguns deles falham ainda mais.

Surpreendemo-nos quando conhecemos alguém de audição mais sensível, por exemplo. Sempre cito meu amigo Ricardo que sem poder enxergar "com os olhos" desde os 7 anos de idade, esperava seu ônibus num ponto onde passavam três linhas diferentes. O Ricardo sabia qual era seu ônibus pelo barulho do motor. Às vezes, engana-se mais quem pode usar os cinco sentidos porque os utiliza mal.

No cotidiano, vivenciamos pouco a experiência de sentir e conhecer o mundo com os cinco sentidos plenamente. Assistimos TV enquanto acessamos nossos e-mails e durante as refeições. (As duas ou as três coisas juntas). Saboreamos pouco os alimentos. Ouvimos mal as pessoas.

Dizem que o sentido mais histórico é o olfato. E acredito nisso. Há perfumes que nos levam a vários lugares da nossa vida; ao cheiro de uma árvore da escola primária, por exemplo. O fato é que todos os sentidos nos enganam e têm sua marca de longa duração mas também de evanescência. A visão parece ser o sentido que mais nos engana e dispersa, nos dá foco, mas também nos faz perdê-lo facilmente.

O tato poderia aprender essa habilidade da visão: a de soltar as coisas facilmente. Nós nos apegamos às coisas muito fácil e até a pessoas. Nossas mãos prendem as coisas, dinheiro, posses, e tudo vai ficando mais pesado e mais suspeito. Falta ao tato o desprendimento que possui a nossa visão. Seríamos mais leves se nossas mãos se desprendessem das coisas como os nossos olhos, não sofreríamos tanto por apego.

Mas a atitude de suspeita é positiva em nossa investigação do conhecimento. Suspeitar do modo com o qual conhecemos o mundo e dele recebemos conhecimento nos ajuda a nos enganarmos menos, a nos iludirmos menos. E diante da imperfeição dos cinco sentidos, precisamos depurar, tornar mais sensível cada um dos nossos sentidos. Um exemplo simples, mas que dá medo em muita gente: comer em silêncio, sozinho, mastigando os alimentos devagar. Outra experiência realmente excêntrica: tomar banho no escuro, assistir TV sem som. São experiências que nos ajudam a pensar sobre o modo com que conhecemos o mundo e a explorar melhor os nossos sentidos.

terça-feira, 8 de junho de 2010

A sua Filosofia e a Filosofia do seu time


Por Anderson Araújo

No último domingo, 06/06, O Atlético-MG perdeu pela primeira vez para o Ceará em Belo Horizonte em sua última partida no “velho Mineirão”. Não é a primeira vez que, após o jogo do galo, escuto o treinador Vanderlei Luxemburgo falar sobre a “filosofia do time”, ou sobre a “filosofia do elenco”. É interessante que muitas pessoas gostam de usar a expressão “minha filosofia de vida” para tratar de crenças e posturas pessoais acerca de algum assunto.

É comum entre os filósofos certo medo de se posicionar diante do que seja “Filosofia”. Algumas vezes isso representa, positivamente, rigor e cuidado com a tradição filosófica, ou, negativamente, uma forma de se evitar o debate.

Voltando à fala do respeitado e admirado treinador Vanderlei Luxemburgo, quero me posicionar acerca do que pode significar a expressão “filosofia do grupo” ou “minha filosofia de vida”.

Contextualizando, após a 7ª rodada do Campeonato Brasileiro, o Atlético-MG, ao perder para o Ceará, permaneceu entre os quatro últimos times do campeonato. É cedo para se falar em rebaixamento, mas isso não deixa de preocupar o torcedor. Da torcida pude perceber que a atuação dos jogadores do atlético realmente nos incomoda. Ouvi diversas vezes alguém dizer “está pior do que eu imaginava”. (Não vou ao estádio para vaiar o meu time, não faz parte da “minha filosofia de vida”). A torcida vaiou e protestou.

Ao final da partida, em sua entrevista aos jornalistas, Vanderlei Luxemburgo utilizou a palavra “filosofia” três vezes durante quase dez minutos de entrevista sobre a atuação da equipe. Ressaltou que o clube paga os salários em dia e tem o melhor centro de treinamento do Brasil, declarou ainda que quer mudar o PERFIL dos jogadores. Disse também que não é “sem vergonha”, porque trabalha muito e que “está com vergonha momentaneamente porque o resultado é ruim”.

O Luxemburgo disse, dentre outras coisas, que quer jogadores comprometidos com o grupo, com a “filosofia do grupo”. Para ele, o elenco que atuou contra o Ceará não teve comprometimento com a “filosofia do grupo”.

Entendo que Filosofia, e sobretudo no sentido citado pelo Vanderlei, é uma atitude diante da vida, dos acontecimentos, enfim, diante do conhecimento. Atitude! Qual é a atitude que os jogadores devem ter para jogar no galo? Comprometimento; trabalho, capacidade de reação; memória da grandeza do clube e, vergonha das más atuações! Além disso, com o intuito de definir a "filosofia do galo", deve-se pensar no perfil do vitorioso Vanderlei Luxemburgo, que pode ser sintetizado pela frase que ele não se cansa de repetir: “Com medo de perder, você perde a vontade de ganhar”. Portanto, jogadores do atlético não podem ter medo de perder, mas muita vontade de ganhar.

Neste sentido, cada pessoa ou time possui uma filosofia, quer dizer, uma atitude diante da vida, do conhecimento e dos acontecimentos. A sua “filosofia de vida” ou a “filosofia do seu grupo” revela o seu perfil ou o perfil do seu grupo; em outras palavras, revelam as suas crenças e seus conhecimentos que podem fazer do seu time um perdedor ou ganhador.

Confira a entrevista do técnico Vanderlei Luxemburgo em www.tvgalo.com.br


quarta-feira, 2 de junho de 2010

Mudar dói, não mudar dói muito

Por Anderson Araújo

É do filósofo grego, Heráclito de Éfeso, a célebre frase: "Não se pode entrar duas vezes no mesmo rio, nós somos e não somos". Assim como as águas do rio mudam constantemente, nós também sofremos constantes transformações e mudanças. É a ideia de que todas as coisas estão mudando sempre, nunca permanecem as mesmas. Mesmo sutis, estes movimentos ou transformações, ocorrem frequentemente.

A ciência e a física demonstram por meio de experimentos que a vida e todas as coisas estão sujeitas ao devir, ou seja, às mudanças. Geralmente as mudanças não são confortáveis. Mudar de casa, de escola e até mesmo de ideias sobre si mesmo e sobre o mundo pode trazer muita insegurança, mas pode trazer também amadurecimento.

Mudanças exigem adaptações, novos saberes e alargamento dos nossos limites, ou seja, é uma oportunidade para driblar ou superar alguma dificuldade. Cada pessoa possui uma identidade, ou caráter (ideia de algo impresso que não muda), por isso dizemos que temos nossos valores e princípios. Mas sempre existe um espaço para transformações, sobretudo daquilo que nos impede de avançarmos em nossos projetos.

Gabriel, "O pensador", tem uma frase que diz: "Seja você mesmo, mas não seja sempre o mesmo". Algumas pessoas reclamam da falta de um bom emprego; outras dizem que não são inteligentes, mas não trabalham para mudar, pelo contrário, lutam para continuar as mesmas. É triste perceber que estas pessoas paralisam suas vidas, devido ao medo das mudanças, ou ao comodismo dos lugares já conhecidos.

Neste sentido, penso que não há como fugir das mudanças, pois são próprias de tudo que vive e mesmo do que é inorgânico. Às vezes adiamos algumas necessárias transformações. Mas, como canta o compositor Oswaldo Montenegro: "hoje sei que mudar dói, mas não mudar dói muito".