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domingo, 29 de agosto de 2010

Orgulho e Narcisismo

Por Anderson Araújo

O filósofo escocês David Hume (1711-1776) defende o orgulho de si como uma paixão positiva. Para Hume, somente quando o “eu” é levado em conta que podemos sentir orgulho. O “eu” é objeto do orgulho, mas não pode ser a sua causa. Causas possíveis do orgulho seriam coragem e justiça, por exemplo; e também, beleza e força. Ele entende que essas causas são naturais ao homem. Então, aquilo que nos move, isto é, as nossas paixões, pertencem à nossa natureza.

O contrário do orgulho para Hume seria a humildade. Toda causa de orgulho nos causa prazer, e o contrário nos causa mal-estar. Para que produza orgulho ou humildade, é necessária uma relação estreita, própria, específica da causa conosco, quer dizer, com a nossa natureza. Assim, só vai sentir orgulho de sua saúde, alguém na velhice, pois na juventude é constante. Sinto orgulho daquilo que me é específico e que é até extraordinário. Simplificando, podemos dizer que o sentimento de orgulho é marcado pelo caráter extaordinário de alguma característica ou talento que possuímos.

Narcisismo e Amor-próprio

Na mitologia grega encontramos a história do jovem Narciso. Um jovem de beleza singular marcado por uma profecia: se um dia visse a si mesmo, morreria. O amor de Narciso por si mesmo é desmesurado. Narciso bastava-se a si mesmo. A sua auto-suficiência o impedia de se relacionar com os outros e justifica sua indiferença em relação às pessoas.

Denominamos então de narcisista a pessoa que só tem olhos para si mesma. O que não deixa de ser uma espécie de egoísmo. Caetano Veloso expressa numa canção o drama de Narciso: "Narciso acha feio o que não é espelho". O amor-próprio pode ser considerado uma forma de cuidado de si e de respeito consigo mesmo. No amor-próprio há equilíbrio no sentimento, o que permite o reconhecimento da alteridade na relação, ou seja, no amor-próprio pode-se falar de coexistência de "belezas", de "pessoas" e não em submissão dos outros à beleza de um indivíduo como a que ocorre no narcisismo.

Ler mais sobre orgulho e outras paixões em:

HUME, David. Tratado da Natureza Humana. São Paulo: Ed. Unesp, 2001.



quinta-feira, 19 de agosto de 2010

Autoridade X Autoritarismo

Por Anderson Araújo

As pessoas tendem a recorrer a instrumentos quando perdem o poder ou quando o seu poder não é reconhecido. A filósofa Hannah Arendt diz que a violência se distingue do poder pelo seu caráter instrumental, ou seja, pelo uso de instrumentos e de armas.

De certa forma o ser humano busca sempre o poder. Isso pode soar estranho aos ouvidos de muita gente, porque conhecemos através da História grandes tragédias e guerras pelo poder. Logo, é porque estamos acostumados com uma face negativa do poder que o julgamos como algo negativo, motivo de guerras, traições e violência em geral.

Digo que todos buscamos o poder no sentido definido pelo filósofo Michel Foucault, no sentido de que poder é apoio, consentimento, voto. Para tanto, só possui o poder aquele que tem o reconhecimento dos outros, enfim o respeito. Com o uso de instrumentos obtemos qualquer outra coisa, menos o poder legítimo. Com o uso de armas obtém-se uma obediência baseada no medo: o medo de ser punido, machucado ou até mesmo de perder a vida.

Desse modo podemos inserir o tema "autoridade e autoritarismo". Um pai é autoridade, um chefe e um professor também. Reconhecemos o lugar de cada um deles em nossas relações; merecem o nosso respeito e o nosso apoio. Mas este apoio é conquistado. Seja por um carisma ou pela "função" que desempenha nesta relação.

A relação entre pais e filhos merece mais a nossa atenção. Sobretudo porque se tem discutido muito nos últimos dias sobre a lei que proíbe palmadas. A relação entre pais e filhos é genuinamente uma relação de poder. Por isso, de certa maneira, o que está em jogo na indisciplina da criança é o fato de que a autoridade não foi respeitada. O diálogo é o meio legítimo para que se estabeleça o poder ou para que ele seja reconhecido.

Muitas pessoas têm preguiça de dialogar ou até nem sabem fazê-lo. Mas é o meio mais eficaz e humano de restabelecer o poder e de educar as crianças. Muitos pais também confundem a ideia de diálogo, pensando que dialogar é ceder sempre e acatar todas as decisões da criança. Diálogo não é isso. Diálogo é esclarecimento, respeito, escuta e momento oportuno para mostrar à criança que ela tem o poder de ser escutada, ainda que ela esteja errada ou equivocada sobre certas atitudes e decisões. Cabe aos pais mostrar o erro ou o equívoco da criança e de esclarecer inclusive que, acerca de alguns assuntos, não cabe ainda à criança a tomada de decisões.

Nós ouvimos uma autoridade e dialogamos com ela, expressando nossas opiniões. Numa relação autoritária, de autoritarismo, nós obedecemos porque temos medo: medo de que o outro grite conosco ou fale mais alto; medo de perder o emprego; medo de perder a "mesada" ou no caso da criança, de levar uma palmada. Um poder autoritário é um falso poder, pois é reconhecido pelo sentimento de medo ao qual uma pessoa é submetida. Enquanto na relação com uma autoridade o diálogo favorece a circulação do poder entre as partes, no autoritarismo não há reconhecimento do poder do outro, mas submissão de uma das partes.

"Eu não concordo com nenhuma palavra do que dizeis, mas eu defenderei até a morte o seu direito de dizê-la". (Voltaire)



sábado, 14 de agosto de 2010

"Meu Pequeno Atleticano"

Por Anderson Araújo

Em "Meu Pequeno Atleticano", Wilson Sideral narra o primeiro dia do seu "Pequeno" Igor no "Gigante da Pampulha", o velho Mineirão. É a final do campeonato mineiro. Sideral descreve o entusiasmo de uma criança que vai pela primeira vez a um estádio de futebol. Neste caso, trata-se de uma experiência transcendente, porque é no Mineirão, jogo do galo e, final do campeonato mineiro!

O pai do Igor conta a história do galo durante a final do campeonato mineiro. Por meio de uma conversa entre Pai e Filho, conhecemos as conquistas do Clube Atlético Mineiro e os ídolos da torcida: o famoso "tropeiro" do Mineirão, Reinaldo, Dadá Maravilha, Marques, Tardelli e outros.

Um livro para "Grandes" e "Pequenos" atleticanos!

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Dúvida

Por Anderson Araújo

René Descartes adotou o método da dúvida como estratégia de argumentação. Em "Meditações Metafísicas" ele fala sobre "as coisas que se podem colocar em dúvida". Ele lembra que normalmente nós recebemos falsas opiniões como verdadeiras. Com o seu método, pretende rejeitar todas as opiniões que forem falsas ou que lhe parecerem falsas. Isso demonstra um certo rigor em seu método.

O filósofo lembra que os sentidos nos enganam. Além disso, nós também nos enganamos quando dormimos, pois diversas vezes confundimos sonho e vigília. Em alguns sonhos achamos e sentimos que estamos acordados e que estamos de fato vivenciando determinadas situações. Logo, nós confundimos sonho e realidade.

Como podemos comprovar se estamos dormindo ou acordados? Nós nos alegramos quando sonhamos, sentimos dor, medo, prazer e tristeza como se estivéssemos acordados. Você não estaria sonhando neste momento em que lê este post de filosofia? Você pensa que está sentado em uma cadeira ou poltrona e que está diante do computador, mas também não poderia estar "na horizontal" sonhando com tudo isso?

Este pensamento pode parecer banal, simplório, ou louco. Mas tem um grande valor filosófico no sentido de nos alertar para a necessidade da dúvida em nossos raciocínios e argumentações. Somos passíveis de erro, sujeitos ao engano. Logo, devemos tomar cuidado com as opiniões que recebemos dos outros e com o nosso conhecimento do mundo em geral. A dúvida nos possibilita um conhecimento mais seguro das coisas e de nós mesmos.

Entretanto, o filósofo René Descartes não se contenta com a dúvida. Sua investigação pretende chegar ao que não se pode colocar em dúvida. É aí que ele chega no princípio "Cogito ergo sum", ou seja, "Penso, logo existo". "Eu estou pensando" é princípio e é puramente intelectual, razão pela qual não posso duvidar. "Eu estou pensando" é indubitável porque é evidente. Mesmo duvidando que estou pensando é indubitável que penso ao duvidar. Já "eu estou suando" não é indubitável porque é um dado da experiência que não é claro, nem evidente. Para Descartes é indubitável aquilo que é puramente intelectual.

Apesar disso, essa problematização gera um longo e interminável debate entre os filósofos. Um deles é se realmente podemos provar a existência daquele que pensa a partir da capacidade de pensar. E ainda, ao descobrir que penso, posso até provar a minha existência, mas como provar a existência das outras pessoas e das coisas ao meu redor?

REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA

DESCARTES, René. Meditações Metafísicas.





domingo, 1 de agosto de 2010

"Você se sente em casa no mundo?"

Por Anderson Araújo

“- Keegan: O senhor se sente em casa no mundo, então? - Broadbent: Claro. O senhor não? - Keegan: (do fundo de sua interioridade) Não. - Broadbent: (jovialmente) Experimente pílulas fosfóricas. Eu sempre as tomo quando sinto o cérebro cansado. Dar-lhe-ei o endereço na Rua Oxford.” (...). (Cena da peça de Bernard Shaw, John Bull’s Other Island)

Penso que o estranhamento do mundo, do mesmo e do outro é condição de possibilidade para o filosofar. Uma vez que, como Bornheim, acredito que o que leva o homem ao filosofar é um processo, a saber, um processo dialético. Dialético porque envolve três momentos. O primeiro é a afirmação dogmática do mundo; o segundo é a experiência da negatividade; e o terceiro, poderíamos dizer, a postura de assumir a filosofia como projeto de vida.

O primeiro momento pode ser até marcado por uma admiração, mas ingênua, e é oposto ao encantamento e ao espanto descritos acima, pois é um momento passivo, sem reflexão e sem questionamentos. Uma admiração do homem que não pensa nem a si mesmo e nem o mundo como problema, é a postura do homem adaptado a um mundo pronto e, portanto, seguro. No segundo, quando o homem vive a experiência negativa, quer dizer, o momento de estranhamento, a afirmação dogmática e segura do mundo dá lugar à dúvida e, assim, à insegurança. E aqui reside a possibilidade de se avançar em direção ao filosofar, caso este momento seja superado. A negação teria aqui um valor metodológico, é o caminho, não é o fim.

O terceiro momento do processo dialético que nos leva ao filosofar é o momento de assumir a filosofia como projeto de vida, isto é, o de abandonar as falsas seguranças, mesmo que para tal seja necessário assumir uma “moral provisória” como o fez Descartes. E aqui um detalhe importante que é a provisoriedade. Pois, Nietzsche já dissera que as nossas convicções são as nossas piores inimigas.

Logo, o filosofar é marcado pela provisoriedade, que traz consigo uma certa insegurança, pois o mundo não é e nunca será sempre o mesmo. O mundo se nos apresenta como mistério, assim como nós mesmos o somos. Todavia, o caráter misterioso do mundo e de nós mesmos não impede que a filosofia investigue e questione o mundo e a nós mesmos. Pois, a filosofia problematiza, mas também argumenta, formulando juízos, afirmativos e negativos.

O que posso conhecer? Ora, se aprendo com o processo dialético do filosofar que os fenômenos me são estranhos como o sou para mim, o que me resta poder conhecer? O fato de o mundo se me aparecer estranho não me impede de conhecê-lo e de explorá-lo. Acredito que tal fato apenas nos impede de sermos pretensiosos quanto às nossas afirmações acerca do mundo.

A partir de Descartes, o saber é fundamentado no “cogito, ergo sum”. E para alcançá-lo tem-se um método seguro, que nos permite chegar, portanto, a um conhecimento seguro. Temos aqui uma ideia de conhecimento atrelada à ideia de verdade infalível. Podemos duvidar sobre a existência das coisas, mas não podemos duvidar que estamos pensando sobre a existência das coisas e o duvidar, que é pensar, prova a existência de um ser pensante. O pensamento teria, pois, uma grande importância para o conhecimento.

Nietzsche e outros filósofos questionaram a postura cartesiana acerca do conhecimento. Temos em Descartes uma pretensão absoluta de um conhecimento infalível acerca da realidade. É a ideia de um sujeito que pode ser caricaturizado pela imagem tradicional e popular do cientista, a do “homem de branco e de óculos”, capaz de desnudar a realidade depois de um determinado tempo de pesquisa, pois pode desvendar os segredos dos seus objetos de pesquisa, através da observação e da razão.

Enxergar o mundo e a nós mesmos como objetos seguramente decifráveis, nos levaria a uma visão dogmática e fragmentada da realidade. A minha postura sobre o conhecimento é, em princípio, “nietzschiana”, pois é orientada pela ideia de um saber que se constrói perspectivo. Portanto, há perspectivas porque há limites no meu conhecimento. Não posso conhecer o todo pela parte, e Kant já demarcara que não posso conhecer todas as coisas, pois há limites para a razão.

À questão “o que posso conhecer?”, posso responder como Kant: posso conhecer fenômenos, e como Nietzsche: perspectivamente. Há limites para a razão e para a consciência. A existência de tais limites não deve paralisar a nossa investigação filosófica. Pelo contrário, ela deve nos orientar para uma postura despretensiosa que se perceba limitada e atenta à pretensão de que se pode conhecer a totalidade das coisas ou dos seres. Um conhecimento seguro é, pois, um conhecimento que se perceba limitado e sempre a caminho.

Portanto, a filosofia nos ensina que, primeiramente, devemos ter uma capacidade de estranhar o mundo. Aprendemos também que o estranhamento, a inquietação, podem se manifestar de diversas formas. Resta dizer que a experiência negativa pode ser passiva e ativa. O homem que tão somente “não se sente em casa no mundo”, necessariamente não está filosofando. Ele pode estar mergulhado numa espécie de pessimismo doloroso que o impede de avançar em direção ao filosofar. Podemos nos sentir fora de casa no mundo em diversos momentos, mas eles devem ser superados, sobretudo pela via argumentativa e discursiva, o que seria uma experiência negativa ativa. É verdade que inseridos no processo do filosofar veremos o mundo com outros olhos, mas não significa que estaremos protegidos de assumirmos outros olhares dogmáticos em nossa vida.

Sobre o processo dialético do Filosofar: BORNHEIM, Gerd. Introdução ao Filosofar. Porto Alegre: Globo, 1978.